Já estamos preparados para gerir a próxima crise?

Não nos iludamos. Estamos perante uma clara alteração da perceção dos cidadãos relativamente à forma como a crise pandémica passou a ser gerida a partir do outono. Claro que ainda é cedo para tirar conclusões definitivas, mas não podemos deixar toda a aprendizagem sobre a gestão da crise para mais tarde, sob pena de não podermos tirar partido dela na fase em que é mais necessária: agora.

Não existem balas de prata e tenho o maior respeito por todos os que no governo, nas autarquias e nas instituições do Estado têm a responsabilidade de gerir a maior crise dos últimos 70 anos. Mas não prescindo de dar o meu contributo crítico sobre as insuficiências que têm de ser superadas para uma melhor gestão de crises - desta e das próximas (nomeadamente, a crise climática) - por parte dos governos:

1. Cenarizar os futuros possíveis e não apenas os futuros prováveis. No fundo, trata-se de planear e desenhar várias opções políticas que se adequem a todos os cenários e que consigam responder à pergunta incómoda - "e se?". Infelizmente, as recentes notícias sobre as mutações e variantes do vírus justificam que todos os cenários sejam considerados.

2 Acelerar a aposta na inovação e nas parcerias. Além das vacinas descobertas em tempo recorde, surgiu uma miríade de produtos aplicados ao controlo da pandemia. Mais do que padronizar ou estatizar, compete aos governos criar o ambiente de investigação, de inovação e de parceria que liberte o potencial de criatividade do sistema científico e das empresas.

3. Digitalização e desigualdades. A mitigação das consequências desta crise passou em grande parte pelo uso massivo das plataformas digitais - teletrabalho, ensino à distância e comércio digital. Infelizmente, nem toda a população e nem todas as profissões se adequam a esse paradigma e o agravamento das desigualdades também se mede por esse desfasamento. Mas também por isso a nossa resiliência a futuras crises passa pela qualificação e pela aposta na digitalização na educação, na economia e na administração pública.

4. Libertar a gestão da crise de amarras ideológicas. Esta crise demonstrou que o Estado desempenha um papel central na proteção dos mais vulneráveis e na recuperação económica. No entanto, nada justifica que, por incapacidade em assegurar uma imediata passagem de todos os alunos ao ensino à distância, se tenha interditado essa opção, durante duas semanas, mesmo naquelas escolas (públicas e privadas) que já estavam em condições de o assegurar. Como também considero sectária a decisão de não envolver, desde o início da crise, as unidades hospitalares do setor privado na rede nacional de serviços de saúde para a covid-19.

5. Dados, factos e ciência na base das decisões políticas. Existe uma correlação absoluta entre a perceção, por parte dos cidadãos, de que as decisões, em tempos de crise, são baseadas em dados fiáveis e no aconselhamento de especialistas independentes, e a confiança que depositam no processo. Logo, é fundamental que os Estados se apetrechem dos melhores recursos de análise e gestão de dados, tirando partido da inteligência artificial. Tal como é decisivo que comités científicos, independentes e multidisciplinares, sejam verdadeiramente envolvidos na formulação das opções políticas.

6. Reforçar a solidariedade internacional. A pandemia vai penalizar, desproporcionalmente, os países mais pobres, que, no imediato, não dispõem de recursos para controlar a propagação da doença. Esta guerra só terminará quando vencermos a última batalha e é do interesse de todos fazer do reforço da cooperação para o desenvolvimento (através de mais ajuda pública, de iniciativas urgentes de perdão de dívida e do acesso equitativo a vacinas nos países mais pobres) um verdadeiro investimento na resiliência global.

Diretor da Cooperação para o Desenvolvimento da OCDE; fundador da Plataforma para o Crescimento Sustentável

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