Israel em África

Estando naturalmente atento aos acontecimentos na Palestina nos últimos dias/anos e tendo também registado tudo o que os especialistas portugueses e estrangeiros têm dito sobre o assunto, não me resta acrescentar nada mais a este debate.

No entanto e, colateral à disputa em curso, há que contemplar o interesse israelita em aderir à União Africana (UA), cada vez mais expresso e lógico até. Aliás, esta ambição não é de agora, só que o momento actual é pós-Acordos de Abraão, que contemplaram a normalização de relações diplomáticas com a República do Sudão e com o Reino de Marrocos. É nestes dois estados que a partir de agora ancorará esta ambição, na sua entrada como membro observador e depois jogará certamente pelo pleno direito, sobretudo através do dinheiro, já que a UA ficou deficitária em cerca de 15% do seu orçamento, após a morte de Kadhafi e o fim do seu endinheirado regime.

Esta adesão não está isolada dos acontecimentos das últimas semanas, já que se tratará também de ganhar a dianteira face à Palestina em África, cuja maioria dos países apoia a causa palestiniana. Israel encontrará âncora no Sudão, cuja rivalidade regional e fronteiriça com o Egipto, em tudo se baseia numa prioridade israelita, a água, o Nilo. Não que Israel queira ou precise de encher garrafões de água aí para matar a sede aos seus, mas porque tem uma perspectiva faraónica sobre este grande rio africano e que diz, quem controlar o Nilo controla o Egipto. Por isso mesmo tem já ao longo de décadas um profícuo programa de parceria agrícola com o Uganda, sendo também o Quénia o "Algarve dos israelitas". Porquê? Porque se tratam de dois países com acesso à nascente do Nilo, o Lago Vitória! Por outro lado, Israel sempre viu com bons olhos a construção da nova e faraónica Barragem do Renascimento, no Nilo Azul etíope, tendo mesmo negado rumores sobre a instalação de um sistema de defesa antimíssil nas imediações deste estaleiro, quando a tensão se instalou entre Egipto e Etiópia, a propósito da água que esta construção iria roubar ao Nilo Branco, que em linha recta abastece o Egipto.

Com Marrocos encontrará aliado que certamente lhe proporcionará negócios e outros "Algarves de veraneio" ainda mais seguros no Mediterrâneo e no Atlântico, cuja moeda de troca será um alinhamento no lóbi marroquino para o "desreconhecimento" da República Árabe Sahraoui Democrática (RASD)/POLISARIO, com quem actualmente se encontra em guerra, por parte dos estados africanos que já a reconheceram. Aliás, sobre este particular sahraoui há uma novidade de monta a assinalar esta semana. As dúvidas que existiam sobre a aceitação da Administração Biden sobre o reconhecimento que a Administração Trump deu à soberania marroquina sobre o Sara em disputa, ficaram dissipadas no papel. Este facto terá as respectivas consequências nas Nações Unidas, na União Europeia e na UA também. Pelo que nos teremos que habituar a substituir em breve o termo Sara Ocidental, para Sara Marroquino.

Mohammed VI já cumpriu a sua missão, pelo que o futuro Hassan III terá foco em Ceuta e Melilla!


Politólogo/arabista
www.maghreb-machrek.pt

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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