Insegurança dos valores

ADeclaração Universal de Direitos do Homem aprovada pela Assembleia Geral da ONU, em 10 de dezembro de 1948, dava por assumida a garantia de um ponto final na quebrada superioridade relativa dos sistemas culturais das etnias e crenças, e relevantemente do afastamento dos mitos do "negro", do "mestiço", do "judeu", e finalmente do "ariano". Conta-se que Jacques Maritain, perguntado sobre se os intervenientes responsáveis na votação tinham chegado a acordo, respondeu "que sim mas não sabia sobre o quê". A anarquia em que se encontra o planeta, depois do enfraquecimento da ONU, da jurisdição do Tribunal Internacional de Justiça, do direito do mar e seus recursos, as relações diplomáticas, a suspensão das pretensões que afetam a América, a exploração do espaço, que continua nos registos, foram sendo atingidos, com mais ou menos dimensão, mas foram antes agravando a nossa esperança durante o século sem bússola, que a UNESCO, instituída em 1945, logo proclamou que "a garantia séria que agora acabou foi tornada passível de negação do ideal democrático, da dignidade da igualdade, e do respeito pela pessoa humana e pela vontade de tudo substituir, explorando a ignorância e o preconceito, e o dogma da desigualdade das raças e homens".

Os factos que se multiplicam tornam cada dia mais evidente a falta das vozes inspiradoras de uma estrutura de cooperação e paz, herança jurídica romana, repondo legitimidades constitucionais, a contribuição cristã que a criação da União Europeia não incluíra mas foram proclamações com respostas conseguidas, embora tornando difícil manter um normativismo ético que acompanhasse constitucionalmente o progresso da ciência e da técnica, medidas no plano de renovar a vida justa entre todas as etnias que igualmente visam os pensadores livres e cooperantes.

A desordem, que avulta com a situação de "guerra" com a covid-19, teve uma recente avaliação de John Micklethwait e Adrian Wooldridge com a publicação com tradução portuguesa com o título A Quarta Revolução, a Corrida Global para Reinventar o Estado (Dom Quixote). Uma das notáveis intervenções do falecido ilustre Hans Küng, não deixou de averiguar, e publicar as suas conclusões sobre esta evolução inquietante. Concluiu que a ordem do mundo não pode, no fundo, assentar na Realpolitik que calcula e impõe somente os interesses nacionais, sem se preocupar demasiado com "sentimentos éticos".

O responsável que aponta aquela teoria é Henry Kissinger, estadista hoje relembrado, e que durante anos levou a cabo esta Realpolitik, da qual se mostrou em eloquente defensor no seu livro Diplomacy. De facto o antigo secretário de Estado do presidente Nixon admira menos alguns políticos americanos como Jefferson e Franklin, que visavam um certo equilíbrio entre Deus e interesses, do que políticos europeus que não temiam recorrer à força, como Richelieu, Metternich e Bismarck. Kissinger observa, não sem ironia, que nenhuma nação, excetuando os Estados Unidos, fundou alguma vez a sua pretensão e liderança internacional no seu próprio altruísmo. Não pode continuar na situação em que se confessara Maritain quando perguntado sobre a votação positiva da Declaração Universal de Direitos, mas que não entendia e que tinha sido votado. Por isso é de reconhecer a oportunidade do recente livro sobre a Quarta Revolução que visa impedir que se tornem mais graves as discórdias evidentes entre as chamadas grandes potências, situação que atinge os valores europeus que foram proclamados pela conseguida União.

O horizonte em que entramos no novo ano não parece apoiar o retrato fascinante do pensamento de Friedman tão respeitado líder no seu tempo, julgando ter conseguido o que se chamou "uma bola de cristal que prevê o futuro". Quanto ao futuro incerto o que são conhecidas são as competições entre as novas grandes potências que renovam os respetivos programas secundarizando as palavras dos próprios responsáveis pela doutrinação divina que orientou, embora com alguns erros, a que se chamou ocidentalização do mundo. É relevante o conjunto de problemas, incluindo segurança e defesa, que os vários países que modificaram a sua história independentista corrigindo-a pela União. O mais angustiante da prometida unidade da "Terra casa comum dos homens" violada pelo facto cada vez mais grave dos homens que fogem da terra em que nasceram para viver em busca de um novo destino em que perdem a vida.

Na conclusão de Bertrand Badie a mundialização está em situação de falência, tanto mais que vive na sua ação atual de perfeito ineditismo. Por isso o projeto francês dos cinco anos sucedeu depois do fim da bipolaridade na sua orientação maior, que consistia em servir da presença francesa o multilateralismo para tentar controlar a mundialização... Não pôde opor as expressões vindas do novo mundo. O que significa todo o mundo.

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