Inércia ou transformação

Há um ano que as nossas vidas mudaram, e não sabemos o que a pandemia ainda nos reserva. A vacina trouxe a esperança de um novo tempo, mas também a consciência de que nada será como dantes, até porque outras ameaças espreitam e a mais ficcional das narrativas continua a ser escassa perante a realidade. Como Aristóteles sugeria, a história do futuro é a verdadeira surpresa, porque a ficção apenas recompõe o que conhecemos.

A maior e mais dura prova coletiva será, decerto, retomar a atividade económica para que seja possível, pelo menos, regressar aos índices de bem-estar que conhecíamos e já eram insuficientes para muitos. Se pensarmos para além do nosso mundo europeu, as dificuldades aumentam e muitos dos países que haviam atingido um índice de renda média vão cair de forma abrupta. Os mais pobres mais pobres ficarão.

Estamos num momento em que as políticas públicas podem fazer a diferença, evitando o aumento das desigualdades e dando oportunidades aos mais frágeis para se erguerem das quase cinzas. Será verdade que não existe dicotomia entre economia e saúde como dolorosamente experimentámos no último mês e meio ao regressar a um confinamento que julgávamos passado, com pesadas consequências para muitos setores económicos que estão parados. Mas este tempo tem de construir futuro, mais ou menos imediato, passando da inércia à transformação.

No cinzento dos dias quase se apagou um dos momentos mais marcantes das últimas décadas: no dia 18 de fevereiro, a sonda Perseverance chegou a Marte. O nome é bem significativo do esforço e da tenacidade que moveram este programa, a capacidade para buscar soluções a partir do conhecimento e da experiência. A perseverança é o melhor símbolo da tarefa que temos pela frente depois da pandemia e também do salto qualitativo que é necessário em muitos domínios.

A OEI acaba de publicar uma obra coletiva com reflexões sobre o futuro da educação intitulada Inércia ou Transformação. Não tenhamos dúvidas de que o setor da educação, desde a inicial à avançada, é um fator decisivo para o futuro das nossas economias. A 4.ª Revolução Industrial, os fluxos migratórios crescentes, a centralidade da economia do conhecimento são anúncios da necessária mudança na educação que a pandemia tornou ainda mais evidentes. Importa dotar as pessoas de competências transversais que respondam às necessidades reais da sociedade e dos sistemas produtivos. Importa preparar a reconversão dos trabalhadores para novas atividades.

Mariano Jabonero, secretário-geral da OEI, escreve no prefácio à obra referida que a única certeza que temos sobre a educação em 2030 é a incerteza, mas alerta que o futuro será radicalmente diferente. A escola como a conhecemos vai desaparecer, ou talvez já não exista, na medida em que a sala de aula deixou de ser um espaço confinado para se alargar ao mundo, desde logo pelo enorme impacto da revolução digital.

Não podemos escolher a inércia porque ela não é possível. Podemos, contudo, acelerar a transformação. A evolução do emprego nas economias do conhecimento há muito que aponta para a passagem das "manufaturas" às "mentefaturas", apostando em áreas inovadoras como a economia do mar ou do espaço. A nossa condição atlântica é uma grande mais-valia que temos de aproveitar. Não somos um país periférico, mas antes uma nova centralidade que tem de promover uma educação transformadora ao longo de toda a vida. Não nos falte a perseverança.


Diretora em Portugal da Organização de Estados Ibero-Americanos

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