Imperfeita e preciosa

Ao considerar a democracia portuguesa como "imperfeita e preciosa", a propósito do oportuníssimo discurso do Presidente da República na sessão parlamentar comemorativa do 25 de Abril de 1974, Clara Ferreira Alves usou duas palavras apropriadas ao valor insubstituível da liberdade. Mais do que um discurso de circunstância, o Presidente preferiu uma reflexão séria e aprofundada sobre o presente, que não esquece as raízes e se projeta como responsabilidade no futuro. "Olhar (a história) com olhos de hoje e tentar olhar com os olhos do passado que as mais das vezes não é fácil de entender, sabendo que outros nos olharão no futuro de forma diversa dos nossos olhos de hoje" - eis o que está em causa. A missão é ingrata, bem o sabemos, já que julgar o passado com olhos de agora seria exigir aos que viveram esse tempo que "pudessem antecipar valores ou o seu entendimento para nós agora tidos por evidentes, intemporais e universais, sobretudo se não adotados nas sociedades mais avançadas de então"... De facto, revisitar a história obriga a muitas precauções - para que não se caia na fácil tentação de "passarmos de um culto acrítico triunfalista exclusivamente glorioso da nossa história para uma demolição global e igualmente acrítica de toda ela". Importa aprender a olhar, em especial pondo-nos no lugar dos outros. Por exemplo, usar os olhos "que não são os nossos, os do antigo colonizador, mas os olhos dos antigos colonizados, tentando descobrir e compreender, tanto quanto seja possível, como eles nos foram vendo e julgando, e sofrendo, nomeadamente onde e quando as relações se tornaram mais intensas e duradouras e delas pode haver o correspondente e impressivo testemunho". De facto, não há diálogo se não for possível ir além das atitudes e dos preconceitos de cada um. Importa trocar experiências e usar o sentido crítico como método biunívoco. E há a precaução, porventura mais sensível de todas - a consideração dos vários tempos nas nossas vidas. "aqueles de nós portugueses que têm menos de 50 anos não conheceram o império colonial nem nas lonjuras nem na vivência aqui no centro. O seu juízo é naturalmente menos emocional, menos apaixonado". Mas devemos distinguir, como salientou o Presidente da República, a posição de "muitos jovens das sociedades que alcançaram a independência contra o império português e viveram depois décadas conturbadas pelos reflexos de vária natureza da anterior situação colonial". De facto, a história nunca pode ser vista de um só lado. Falamos de fenómenos complexos e diversos, de existências diferenciadas, de interpretações que têm de recusar a simplificação.

Ouvimos os ecos da lição de Eduardo Lourenço: "Saído de ilusões (...), povo missionário de um planeta que se missiona sozinho, confinado no modesto canto de onde saímos para ver e saber que há um só mundo, Portugal está agora em situação de se aceitar tal como foi e é, apenas um povo entre os povos. Que deu a volta ao mundo para tomar a medida da sua maravilhosa imperfeição" (Portugal como Destino: Dramaturgia Cultural Portuguesa, 1998). Apenas, um povo entre os povos, nem melhor nem pior do que outros, cuidando da frágil e preciosa flor que é uma democracia de pessoas comuns. "O 25 de Abril foi feito para libertar, sem esquecer nem esconder, mas para libertar, e os que o fizeram souberam superar muitas das suas divisões."
O discurso que temos na memória deve, pois, ser lido e relido. Sobretudo ouvido. "Não há, nunca houve um Portugal perfeito. Como não há, nunca houve, um Portugal condenado. Houve e haverá sempre um só Portugal. Um Portugal que amamos e de que nos orgulhamos para além dos seus claros e escuros, também porque é nosso."

Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

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