Ilusão e realismo

A administração Biden tem sido arrumada sem sobressaltos, casos ou atropelos, recorrendo à experiência e à determinação de muitos que serviram presidentes democratas no passado recente. Só esta normalidade já é um feito político, no meio do caos administrativo deixado por Trump e do cerco democrático exposto pela invasão ao Capitólio. Tal como um presidente divisionista arrasta propositadamente multidões para a irreversibilidade da trincheira, também um presidente de perfil oposto tem mais capacidade para pacificar a sociedade, negociar legislação bipartidária, ser um promotor mais construtivo de soluções na frente externa. Se liderar pelo exemplo não é premissa oca, também a liturgia política precisa de dignidade restaurada.

O discurso de Joe Biden tocou nas traves-mestras essenciais - união, pacificação, inclusão, diversidade, representatividade, regeneração, restauração, maturidade, experiência, motivação, resiliência, aspiração, sonho -, mas a sua concretização ultrapassa a vontade do novo presidente.

Desde logo porque a emergência sanitária vai implicar a emissão de uma série de ordens executivas que assumam a gestão federal da pandemia e corrijam decisões de Trump. Entre a covid e o regresso ao Acordo de Paris e à OMS, dos empréstimos aos estudantes ao cancelamento de projetos energéticos ou à reversão de políticas migratórias, as primeiras semanas serão de afirmação rápida da Casa Branca no processo legislativo. Isto vai acalmar a bancada democrata e enfurecer uma larga parte da bancada republicana, a braços com alguma descolagem a Trump e a conclusão do impeachment no Senado.

Esta fase vai, por isso, precisar de fluxos políticos equilibradores, capazes de não alienar a dezena e meia de senadores que, aqui e ali, podem estar disponíveis para o diálogo bipartidário. É aqui que a política externa encaixa: o desanuviamento diplomático com aliados europeus e asiáticos, caro a uma tradição republicana, a par da continuidade do cerco a Pequim por outros meios, pode ser fonte de entendimento entre Casa Branca e Congresso. Sem ter essa movimentação em conta, Biden dificilmente conseguirá trilhar um caminho de distensão interna.

Acontece que desanuviamento diplomático com aliados implica admitir que a perceção sobre a indispensabilidade do papel da América se mantém inalterada depois destes últimos anos. Pura e simplesmente isto não corresponde à realidade, como prova a grande sondagem divulgada há dias pelo ECFR.

A desconfiança europeia aumentou em relação aos EUA, a vontade em autonomizar decisões cresceu, tal como a ideia de maior equidistância face a Washington e Pequim. É preciso recuperar o que foi destruído: a confiança. Para isso vão ser precisas bem mais do que cartas de intenções impecavelmente traçadas: é urgente apostar no entrosamento pessoal (encontros multi e bilaterais), dinâmicas de trabalho com desafios existenciais comuns (covid, clima, China, Rússia, digital, comércio, migrações), a criação de um espaço público transatlântico menos tóxico pela geração de mentiras e conspirações, e um assomo de responsabilidade coletiva para regular o comportamento digital, fiscal e corporativo das grandes empresas tecnológicas.

A democracia americana sofreu, nos anos Trump, com a erosão de todos estes eixos. Vale a pena aprender com isso, aproveitar a chegada de Biden e alargar a frente preventiva. São já por de mais evidentes, em Portugal, os sintomas da doença.


Investigador

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