Holodomor

Em Abril de 1933, Georges Simenon visitou Odessa. Quando iniciou o seu périplo pela "Europa em crise", já tinha ganho fama com as histórias policiais do comissário Maigret, surgidas pouco antes, com um alucinante ritmo de publicação. Agora, nas vestes de repórter, entrevistará gente famosa - Gandhi, Hitler, Mussolini, Trotsky - e conhecerá ambientes e lugares que lhe servirão de matéria-prima para os seus romances, entre os quais Les Gens d'en Face, cuja personagem feminina principal, Sonya, se inspirou quase a papel químico numa Sonya de carne e osso, a agente da Intourist que os soviéticos colocaram como sua controleira, a vigiar-lhe os passos e a tentar impedir que o escritor-jornalista testemunhasse as tragédias em curso naquela república. Sonya falhou a missão e, nas páginas do Le Jour, Simenon acabou por publicar 23 reportagens a que deu o título "Peuples qui ont faim", onde descreveu a situação dramática dos pequenos camponeses, os kulaks, aos quais, segundo ele, "nada mais restava senão morrer".

Pela mesma altura, Sergio Gradenigo, o cônsul italiano em Carcóvia, reportava que, nessa cidade, uma das maiores da Ucrânia, os pais tinham adoptado o hábito de levarem e trazerem as crianças das escolas, proibindo-as de andarem sozinhas pelas ruas. O motivo? Medo de que fossem caçadas, mortas e comidas pela multidão esfaimada que rondava por perto. "Os filhos dos dirigentes do partido e da OGPU [a polícia política] são os mais procurados, porque têm melhores roupas", escreveu, acrescentando uma frase breve, arrepiante: "O comércio de carne humana é cada vez mais intenso."

Pela mesma altura, o cônsul de Itália em Kiev espantava-se pela proliferação de lojas Torgsin por toda a Ucrânia e relatava que, em breve, elas iriam começar a aceitar artigos de joalharia, além do ouro e da prata que já compravam a quem lhos vendesse. O regime necessitava desses metais preciosos para adquirir bens no exterior, bastando referir que, entre 1932 e 1935, os anos da Grande Fome, um quinto das importações soviéticas de maquinaria e matérias-primas foi pago com o que o Estado arrecadou nas lojas Torgsin a troco de alimentos básicos, que escasseavam em toda a parte. Para o Kremlin, a fome era um fabuloso negócio.

Outro italiano, cônsul em Odessa, notara também um fenómeno estranho, em meados do ano anterior: não havia óleo vegetal na cidade, mas quer este, quer as sementes para o produzir, continuavam a ser exportados em grandes quantidades para o Ocidente, saindo de navio pelo mar Negro.

Tudo isto - a fome e o canibalismo, a miséria e a extorsão, o incomensurável sofrimento de milhões de seres humanos - foram consequências de uma política deliberada e planeada, como, sem margem para dúvidas, demonstrou a historiadora Anne Applebaum em Red Famine. Stalin's War on Ukraine, um relato arrasador das grandes fomes ucranianas dos anos 1930, conhecidas por "Holodomor", que à letra significa isso mesmo, "matar pela fome".

Ao longo dos séculos, a tragédia maior da Ucrânia sempre foi a sua "terra negra", como lhe chamou Heródoto, os solos de uma fertilidade extrema, capazes de darem duas colheitas por ano. A situação geográfica do país, entalado entre dois gigantes, a Polónia e a Rússia (não por acaso, "Ucrânia" significa "fronteira"), tornou-o um território disputado e esquartejado desde tempos imemoriais. Agora, que tanto se fala - e bem - dos dramas da dominação colonial, é oportuno evocar o colonialismo russo na Ucrânia, lembrando que em 1876, já no tempo dos czares, Alexandre II proibiu o uso da língua ucraniana em livros e em jornais, nos teatros, nos libretos das óperas e que a política estalinista lançada em 1932 não visou apenas a colectivização da terra, mas a "des-ucranização" do país, com a prisão e a condenação à morte de historiadores e académicos, a proscrição, em Janeiro de 1933, do ensino da história, da língua e da literatura nacionais, com o encerramento de universidades e bibliotecas (40 funcionários da Biblioteca Nacional foram presos por serem "nacional-fascistas"), a liquidação e a purga de academias científicas (a Academia de Ciências Agrárias perdeu 90% dos seus corpos directivos), o banimento de mais de 200 peças de teatro e, a seguir, de milhares de livros, a destruição de milhares de templos (só em Kiev foram arrasadas 69 igrejas entre 1934 e 1937), a demolição de monumentos e locais de culto (os cemitérios judaico e ortodoxo de Kiev foram destruídos em 1935), a revisão da grafia e dos dicionários.

A colectivização procurou destruir os pequenos proprietários rurais, os kulaks, mas pretendeu, acima de tudo, exaurir a riqueza agrícola do país em benefício de Moscovo, que necessitava em absoluto de exportar ao máximo o que a Ucrânia produzia para, em troca, obter do Ocidente a maquinaria e a tecnologia essenciais para a mecanização da economia soviética. Entre 1929 e 1931, as exportações de cereais para a Alemanha triplicaram e, em Setembro de 1930, o comité central do partido comunista chegou mesmo a discutir se deveria aumentar ainda mais as exportações de cereais para a Itália fascista, com a qual mantinha boas relações de comércio, prova provada de que os interesses e o vil metal não conhecem ideologias nem princípios. Por detrás de tudo isto, existiam também razões de geopolítica: Estaline estava convencido de que, se conseguisse inundar a Europa com cereais e bens agrícolas a preços artificialmente baixos, iria desestruturar fatalmente as economias capitalistas do Ocidente.

Por sua indicação pessoal, o Politburo decidiu, em Dezembro de 1931, que 80% das explorações agrícolas deveriam ser colectivizadas e, apesar dos evidentes sinais de fome e de miséria, foram impostas mirabolantes metas de produção às novas unidades colectivas. Aqui começou a tragédia. A autocracia e o terror impediam as estruturas regionais do partido ou quem quer que fosse de advertir Moscovo para o irrealismo dos objectivos: quem ousasse duvidar era morto ou deportado. E, quando o monumental fracasso do projecto se tornou inegável, as culpas nunca poderiam ser atribuídas à colectivização acelerada. Esta era um projecto pessoal de Estaline, no qual o ditador se empenhara a fundo, por vezes em confronto com os seus camaradas do comité central, que a todo o momento aguardavam um deslize seu para, se possível, defenestrá-lo. Admitir um falhanço na Ucrânia era um risco político que o líder soviético não podia correr, tanto mais que, sempre paranóico e conspirativo, estava convencido de que o marechal Pilsudski sonhava reabrir a guerra polaco-soviética, terminada em 1921 com a Paz de Riga.

Assim, quando a polícia secreta deu conta dos primeiros sinais de fome na Ucrânia, ainda no Verão de 1930, quando surgiram relatos de que os camponeses estavam a comer as rações dos cavalos e que muitas lojas das cidades começaram a ser pilhadas, a ordem não foi para arrepiar caminho, retroceder para pensar, mas, pelo contrário, para aumentar o ritmo do desastre. Não podendo ser atribuídas a Estaline, responsabilizaram-se as próprias vítimas, culpando-se os kulaks pela miséria reinante, inventando e matando milhares de "sabotadores", "traidores" e "inimigos do povo". O pior, contudo, poderia ter sido evitado, ainda na Primavera de 1932, se Estaline tivesse dado ouvidos aos relatórios a cada dia mais aterradores, se tivesse escutado os apelos de alguns líderes do PC ucraniano para aliviar as metas de produção e auxiliar o povo que morria à fome. Perante a indiferença de Moscovo, um dos mais importantes dirigentes comunistas do país, Mykola Skrypnyk, suicidou-se em 1933, não sendo um caso isolado. Fornecer ajuda humanitária aos famintos da Ucrânia implicaria reconhecer o erro, coisa que Estaline e o seu círculo próximo (Molotov e Kaganovich, em especial) jamais poderiam admitir, até por razões de sobrevivência política.

A tragédia maior ocorreu na Primavera e no Verão de 1933. Nos campos, comeu-se tudo o que mexia: cavalos, cães e gatos, sapos e rãs, insectos, vermes rastejantes - e outros seres humanos. Antes de tombarem de inanição, com corpos translúcidos que chegavam a deixar ver os órgãos internos e os seus batimentos, os camponeses deambulavam pelas estradas, ferviam e comiam o couro dos sapatos e dos cintos, devoraram a palha dos telhados das casas, as cascas das árvores, revolviam sepulturas à procura de cadáveres de crianças, de carne mais tenra. Em Março, um relatório da OGPU da província de Kiev dizia que o canibalismo se tornara "um hábito", com mais de dez casos reportados por dia (os números reais eram, obviamente, muito superiores, como a própria OGPU reconheceu). Houve pais que mataram os filhos para comê-los, e vice-versa, famílias inteiras que devoraram os avós, vizinhos que massacraram vizinhos. Em certas regiões, chegou-se ao mais surreal dos limites, com a polícia secreta a considerar que alguém estar vivo era, em si mesmo, um sinal suspeito, um indício de que o sobrevivente tinha alimentos roubados ou escondidos em casa; ou, o que não era improvável, que tinha comido os membros da sua família ou os seus vizinhos. Nos orfanatos das cidades, a abarrotar de crianças, a taxa de mortalidade chegou aos 30%, mas talvez a estatística mais cruel seja a da desigualdade e da injustiça: enquanto milhões morriam à fome, os funcionários do partido e da polícia política e os operários das indústrias continuaram a receber sem falhas os seus cupões de racionamento, o que fez que 40% da população arrecadasse 80% do contingente alimentar de todo o país.

Entre mortes directas e indirectas (v.g., 600 mil crianças que não nasceram), os demógrafos estimam que a tragédia da Ucrânia de 1932-1933 fez entre 4 e 5 milhões de vítimas. Dos 3,9 milhões de mortes directas, 3,5 milhões tiveram lugar nos campos e 90% dos óbitos concentraram-se num só ano - o cruel 1933 -, particularmente em apenas três meses, Maio, Junho e Julho. Uma rapariga nascida na Ucrânia em 1933 tinha uma esperança de vida de oito anos e um rapaz tinha uma esperança de vida de cinco anos.

Em 1937, quando a URSS lançou o seu primeiro censo em 11 anos, as projecções apontavam para que o total da população soviética fosse de 170 milhões. Quando os números chegaram a Moscovo, eram muito inferiores, 162 milhões. Oito milhões de pessoas foram dadas como "desaparecidas".
O director do instituto de estatística da URSS, Ian Kraval, foi preso e executado, assim como centenas de funcionários seus e todos os que tivessem tido acesso aos números originais. O censo foi abolido e, em 1939, os novos técnicos, entretanto nomeados, fizeram malabarismos para chegar aos números pretendidos (no Cazaquistão, por exemplo, 350 mil mortos foram dados como vivos). Antes sequer de saber dos resultados do novo censo, em Março de 1939, no 18.º Congresso do Partido, Estaline anunciou triunfal que a URSS atingira o número mágico de 170 milhões de habitantes. Ninguém piou.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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