Heat

O rebuliço interno no CDS teve laivos hollywoodescos e referências cinematográficas. Neste jornal, Ribeiro e Castro utilizou "A Golpada", com Paul Newman e Robert Redford, para abordar o pedido de congresso de Adolfo Mesquita Nunes. Noutro diário de referência, Telmo Correia responder-lhe-ia em estilo, preferindo "O Último Imperador", de Bertolucci. Na minha interpretação do enredo, não vou tão longe. Em "Heat", de Michael Mann, filmado no ano em que nasci, dá-se uma célebre cena em que Robert de Niro telefona ao antagonista e diz: "Estou a falar para um telefone vazio. Porquê? Porque há um homem morto do outro lado da linha".

É um pouco aí que o CDS está hoje. Francisco Rodrigues dos Santos sobreviveu à procura de clarificação despontada por Mesquita Nunes, mas as condições políticas que mantém para exercer o cargo são dúbias. Dono de uma Comissão Política Nacional com a média de uma demissão por dia nas últimas semanas e de uma Comissão Executiva órfã do grupo que lhe ofereceu a liderança, a fragilidade da sua direção é indesmentível. Por mais substituições e reformulações que ensaie, o cenário é idêntico ao de um governo em que metade dos ministros se demitiram mas que o parlamento vai protegendo de eleições. É estatuariamente válido? Absolutamente. Mas politicamente sólido? De forma alguma.

Além do triste espetáculo que foi oferecer às televisões as intervenções caseiras dos conselheiros nacionais, o fim de semana do CDS pareceu empenhado em aliviar a alma de um país aflito com o desastre sanitário. No Twitter, choveram memes. No país real, encolheram-se ombros. Na bolha política, reviraram-se olhos. Quem viu ou recebeu os expressivos vídeos de alguns dirigentes centristas interrogou-se certamente sobre a data do lançamento do manual de "Como destruir um partido para totós".

Que a moção de confiança de Rodrigues dos Santos tenha passado somente com os votos das inerências da sua direção é um pormenor relevante, mas que não belisca a sua legitimidade. As suas continuadas incoerências é que, por seu turno, lançam dúvidas quanto à sustentabilidade do seu mandato.

O homem que foi eleito em congresso proclamando "uma nova direita" vem agora colar-se à "direita social" de Marcelo Rebelo de Sousa, furtando até o "viva sempre Portugal" com que o Presidente da República celebrou a reeleição. Para quem tanto torce o nariz a projetos catch-all não deixa de ser irónico ouvi-lo mimetizar o político mais catch-all de todos.

Quanto aos remoques contra a direção que o antecedeu, tudo se torna risível a partir do momento em que vilipendia o programa eleitoral pelo qual ele próprio fez campanha e, mais flagrantemente, quando ataca o legado de Assunção Cristas ao mesmo tempo que a considera a melhor solução para Lisboa, nas autárquicas deste ano. Afirmar-se "o presidente das bases" e vir-se a descobrir que lhes ocultou demissões da sua Comissão Política durante meses ultrapassa a ironia, caindo na quebra de confiança. Os apoiantes de Chicão acusarem os contestatários de "insensibilidade social" por se terem insurgido durante uma pandemia serem os mesmos que, horas depois, batiam palmas à sua ida a um programa de comédia foi, de facto, hilariante.

Em relação às críticas aos militantes que mantêm "uma vida profissional ativa", creio que nem Rodrigues dos Santos acredita nisso ou não permaneceria, com todo o mérito, consultor num escritório de advocacia. Um político convertido em funcionário partidário seria, obviamente, a coisa mais velha que um jovem poderia representar. E faria alguém, como Pacino para De Niro no tal "Heat", avisar do outro lado da mesa do café: "Brother, you"re going down".

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