Há um artista a viver dentro do seu smartphone

No menu dos smartphones proliferam aplicações que nos convidam a fazer fotografias com os mais variados recursos técnicos. Incluindo as que evocam certas memórias mais ou menos distantes, algumas permitindo até a recuperação nostálgica de películas que, como dizem os tecnocratas, foram "descontinuadas". Exemplo insólito: uma aplicação que oferece a possibilidade de refazer o look de uma determinada película da Fuji, que, pela densidade dos seus verdes e castanhos, ficou associada ao visual da década de 90 - a "atualização" vai ao ponto de inscrever nas imagens agora obtidas uma data de um ano daquela década.

Existem também aplicações para a manipulação técnica das fotografias. Em boa verdade, muitas delas estão concebidas para um bizarro tratamento laboratorial das imagens. Tais recursos digitais não são novidade, mas confesso que só recentemente me apercebi da sua frondosa multiplicação e, em particular, do princípio "criativo" que proclamam. A saber: trata-se de "transformar as suas fotografias em arte".

Que arte é esta? Pois bem, são hipóteses de intervenção que podem fazer lembrar ancestrais tratamentos da fotografia em papel (algum tipo de alto contraste ou o efeito de um filtro difusor atenuando os contornos de corpos e objetos) ou processos de morphing cujo delírio chega ao ponto de existir uma aplicação que sugere a conversão de um rosto por nós fotografado "à maneira de" Edvard Munch e do seu célebre quadro O Grito...

Que aconteceu no nosso imaginário tecnológico (ou na tecnologia que determina o funcionamento do nosso universo figurativo) para que a intervenção artística seja definida - e oferecida - como esta possibilidade pueril? Porquê e para quê manipulações técnicas que têm tanto de automatizado como de impessoal?

Dois princípios ideológicos parecem confluir aqui - e são tanto mais poderosos quanto se confundem com uma espécie de "estado natural" da produção e difusão de imagens. O primeiro procura gratificar o nosso individualismo digital: somos proprietários e, mais do que isso, criadores de imagens que mais ninguém tem. O segundo, mais insidioso e profundamente reacionário, sugere que as imagens (sobretudo as fotografias) são acidentes sem importância que só se "transformam em arte" quando nelas aplicamos algum "efeito especial", promovendo a figuração do mundo a um jogo infinito de manipulações mais ou menos arbitrárias.

Na tristeza congénita deste paraíso digital, a diferença artística é moeda de fraco valor, só se afirmando a partir do momento em que aplicamos os recursos... de alguma aplicação. A redundância envolve um desagradável menosprezo: os fabricantes das aplicações não acreditam que qualquer um de nós, usando o seu smartphone, possa fazer uma fotografia que, modéstia à parte, se distinga por alguma singularidade artística.

As aplicações que querem transformar as nossas imperfeições quotidianas "em arte" conseguem, assim, reavivar o velho preconceito que acompanhou (e, pelos vistos, continua a acompanhar) a nossa relação com a pintura, que foi dispensando as matrizes figurativas dos séculos XVIII e XIX. Como se, em 1907, os corpos distorcidos de Les Demoiselles d"Avignon fossem um "engano" de Pablo Picasso, e não o risco calculado de quem procurava a alegria de novas linguagens.

Seguindo tal perspetiva meramente tecnológica, o quadro A Sobremesa, pintado por Pierre Bonnard há um século (1921), poderia até ser apresentado como uma pré-história das aplicações dos smartphones. Em vez de se limitar à reprodução fotográfica, Bonnard teria partido da sua evidência para depois "retocar" tudo com manchas de cor mais ou menos festivas, suscetíveis de definir um belo padrão de cores, eventualmente adaptável a alguma linha de pronto a vestir...

Que Bonnard seja, por exemplo, um dos mais complexos retratistas da intimidade humana ou um metódico reconstrutor das regras clássicas da profundidade de campo, eis o que não passa, por certo, de divagação "intelectual". Em nome da tecnologia, demitimo-nos do prazer de ver.

Jornalista

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