Guterres foi amaldiçoado?

António Guterres parece estar fadado para ser o homem certo para o lugar certo... no momento errado.

Quando foi primeiro-ministro em Portugal, entre outubro de 1995 e abril de 2002, parecia que tudo lhe era favorável. Mas não era bem assim.

Durante esse periodo, em troca de um saldo líquido de transferências europeias para o nosso país de cerca de 20 mil milhões de euros (parece tão pouco, hoje em dia!), aceitou-se o aniquilamento de uma parte relevante do setor produtivo do país (negociação que já vinha de trás, da era Cavaco Silva), o monstro da financeirização da economia dominou tudo e todos, facilitou-se o caminho que levou depois ao aumento da corrupção bancária e política, inventaram-se mais PPP, SCUT e outras tragédias para os dias de hoje.

Quando Guterres se demitiu, na sequência de uma derrota do PS nas autárquicas, a ideia que passou é que estava farto de um "pântano" (a expressão é dele) onde, quanto mais mexia, mais se enterrava - era o local errado para este homem, que tantos viam como o homem certo.

Passados uns anos foi Alto-Comissário da ONU para os Refugiados. Saiu em 2015, deixando 65,3 milhões de deslocados no mundo. Quando tomou posse desse cargo, em 2005, eram apenas 9,2 milhões.

Não é correto, como é óbvio, assacar-lhe culpas por isso. O que aconteceu é que ele enfrentou uma multiplicidade de conflitos armados, guerras, revoltas, tragédias e doenças que fizeram esse número escalar. Lembram-se, por exemplo, do Estado Islâmico proclamado em 2014? Mais uma vez este homem certo (pelo menos todos dizem que ele foi ótimo na ACNUR) estava no momento errado.

Mesmo assim, o seu prestígio pessoal foi suficiente para ser eleito secretário-geral da ONU, onde chegou a 1 janeiro de 2017.

Azar: no dia 10 do mesmo mês e do mesmo ano tomou posse o novo Presidente da maior potência mundial, Donald Trump, que tira os Estados Unidos da América de inúmeras iniciativas das Nações Unidas ou apadrinhadas por elas, como o acordo climático de Paris, o Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas, a Organização Mundial de Saúde, o tratado de controlo de armas new START, e sei lá que mais.

Os Estados Unidos acompanharam esta menorização da ONU com a abertura de uma tensão cada vez maior com a China (tensão dia a dia mais perigosa e continuada pela atual Administração Joe Biden) e pelo rasgar do acordo nuclear com o Irão. Nestas questões a ONU pareceu uma não existência, a falar sozinha para uma comunicação social ocidental que a remete para o rodapé da história.

Outro azar para Guterres: no final de 2019 inicia-se a pandemia de covid-19 e o mundo entra num precipício de desorganização e egoísmo que empurra as economias globalizadas para um previsível colapso. Todas as tentativas de uma vacinação equilibrada pelo planeta fracassam, rotundamente.

Os apelos de Guterres e da Organização Mundial de Saúde estão longe de ser ouvidos pelos países mais poderosos, o programa COVAX não está a receber o número de vacinas necessário para ajudar os países mais débeis, as acusações políticas e os negócios da saúde em torno da pandemia aprofundam uma reconfiguração nas relações entre potências que parece nada trazer de bom para a humanidade.

Os programas globais da ONU que Guterres abraçou com a maior determinação que foi capaz, como o da Agenda 2030 para erradicação de pobreza no mundo, redução de CO2, igualdade de género e criação de emprego, parecem correr o risco de irem cair no anedotário diplomático e político.

Os tempos que Guterres apanhou nas Nações Unidas foram, comprovadamente, os tempos errados para que ele pudesse ter sucesso.

Agora, mais uma vez, Guterres volta a ser visto como o indivíduo que todos acham ser o homem certo para o lugar certo - refiro-me à unanimidade do Conselho de Segurança das Nações Unidas para o propor a um segundo mandato como secretário-geral da ONU.

Mas este anátema de Guterres de cair sempre no tempo errado para liderar projetos, esta sina de que quando ele sai das instituições as coisas estão piores do que quando ele entra nelas, independentemente das suas evidentes qualidades pessoais, é pavorosa.

A maldição de Guterres está ao nível de um conto sobre uma qualquer ira lançada por deuses da Antiguidade ou de uma tragédia sobre a fatalidade do exercício do poder escrita por Shakespeare... Caramba!

Jornalista

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