Futebol, uma civização à parte

O poder é, desde sempre, a força transformadora das sociedades. Exercido umas vezes no interesse coletivo do bem, outras no benefício de interesses obscuros, é o poder que muda as civilizações e o comportamento das sociedades.

O futebol é, desde há muito, um poder, nem sempre de interesses percetíveis. Desde logo, porque deixou de ser um desporto no sentido estrito do termo, movimentando-se não pelo prazer dos seus atletas, ou em benefício destes, mas no interesse dos detentores do capital que o sustenta. Na realidade, os atletas mais não são do que ativos financeiros dos donos dos clubes. Sim, os clubes já não são agremiações de pessoas voluntárias e disponíveis para a causa, mas antes empresas detidas por grupos económicos que têm no futebol um negócio altamente lucrativo. A bem da verdade, até aqui, nada de muito diferente do que acontece em todo o desporto profissional, com exceção, talvez, ao perfil dos investidores.

Sendo o futebol um negócio com bastante poder, ele consegue transformar as sociedades, pelos movimentos sociais que gera, pela massa financeira envolvida e pelo controlo explícito ou implícito dos media. Veja-se a quantidade de horas dedicadas a ele nos diferentes canais de informação.

Sem me querer alargar sobre uma realidade por demais conhecida, o que aconteceu nas últimas semanas em Portugal não é permitido a nenhum outro setor da economia. Desde a instalação da pandemia, há regras para o cinema, para o teatro, para ir à escola, para trabalhar, lotações máximas reduzidas no supermercado, nos restaurantes, nos cafés e até na praia, que agora tem semáforos e máscaras. É um facto que também o futebol tem tido regras de ausência de público, em todos os campeonatos nacionais e em todos os jogos em território nacional.

Face a todas as regras que conhecemos e que o povo português no seu registo responsável tem acatado, a pergunta que fica por responder é: como foi possível o que se passou com as comemorações do vencedor do Campeonato, do vencedor da Taça (menos) e da final da Liga dos Campeões? Porque não aconteceram movimentos semelhantes noutros desportos que também tiveram campeões? A título de exemplo, realce-se o comportamento exemplar do público durante o Rali de Portugal, evento do Campeonato do Mundo. É o futebol uma civilização à parte?

Visto de outro ângulo: se os portugueses enchessem as esplanadas para comemorar um qualquer feito, que não futebol, como os ingleses encheram na cidade do Porto durante os dias da Liga dos Campeões (o evento durou três ou quatro dias apesar de um jogo de futebol só ter 90 minutos) como teriam procedido as autoridades? Teriam sido tão condescendentes como o foram com os cidadãos ingleses? Se um grupo de cidadãos de outro continente (não europeus) ocupar uma esplanada sem respeitar as regras de distanciamento, não serão vítimas de abusos de autoridade, de xenofobia e de outros distrates? Passou-se no Porto e à mesma hora em Lisboa, em Albufeira e noutros destinos, onde idolatramos estes turistas do futebol.

Depois daquilo a que assistimos, os nossos responsáveis pela ordem pública, pelo poder político e pelo controlo da pandemia vieram a público lembrar-nos que não podemos ser como os ingleses, não podemos abusar do desconfinamento e não podemos dizer que queremos turistas e depois criticar o seu comportamento.

Como dizia Vasco Santana numa das suas personagens: compreendi-te...

Presidente do Instituto Politécnico de Coimbra

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