Filide, nome de guerra

Morreu, enfim, rodeada da maior piedade. Deixou expresso que queria ser enterrada na igreja da sua paróquia e, à medida que o fim se aproximava, fez vários legados a instituições religiosas dedicadas à Virgem, para que, quando partisse, lhe rezassem missas pela alma impura. Na penúltima cláusula do testamento, atestado por um notário diligente, ordenou que um quinto dos seus bens fosse deixado às Convertidas (assim se chamavam aquelas que largavam o meretrício e a má vida) e o facto é tanto mais curioso quanto fora junto à casa dessa irmandade, encostada ao muro, que, durante anos, vendera o corpo em mortal pecado.

O documento fora feito quatro anos antes do discreto passamento e já então mostrava que Filide Melandroni soubera conquistar o esplendor próprio das grandes cortesãs. Entre os bens arrolados, uma tapeçaria turca que cobria a mesa da sua sala de visitas, oito cadeiras de couro, uma cama de casal dourada, coberta por um dossel de tafetá verde, além de livros, vasos e jarras, e um tinteiro de cobre prateado. Entre os adereços, um colar de pérolas e vinte botões de ouro. Do seu particular afecto eram três pequenas pinturas devocionais, quase miniaturas, cada qual com seu significado próprio: uma representava a Virgem, outra uma cena da Natividade e outra, enfim, Maria Madalena, a meretriz arrependida.

Filide determinou que todos esses bens fossem vendidos pela melhor oferta, se necessário fosse para o cumprimento dos seus desígnios pios. Com uma excepção, porém. Havia um quadro, um retrato dela, que deveria ser entregue a uma pessoa em concreto, Giulio Strozzi, o seu protector de muitos anos, o homem que lhe permitira ter junto de si a pintura amada. "Declara que tem em sua casa uma pintura ou retrato das mãos de Michelangelo Caravaggio que pertence a Giulio Strozzi. Pretende que seja restaurada e devolvida ao Senhor Giulio."

O quadro fora pintado por volta de 1597 e chama-se Retrato de Uma Cortesã ou Retrato de Filide. É o retrato a óleo de uma mulher, de 66 cm x 53 cm, onde alguns viram a representação de Flora, a deusa romana das flores e da Primavera, símbolo de fertilidade. Junto ao peito, graciosamente erguido por uma mão delicada e despida de adornos, a mulher tem, de facto, uma flor, que ao início se julgou ser uma de laranjeira ou bergamota, um signo de fidelidade matrimonial que apontaria para que a retratada fosse Caterina Campi, a mulher do arquitecto Onorio Longhi, um dos maiores amigos do pintor, talvez mesmo o maior. Mais tarde, a flor foi identificada como jasmim, cuja conotação erótica sugeriu claramente que a retratada era Filide, a cortesã, como aliás consta do inventário de bens do marquês Vincenzo Giustiniani, um dos patronos de Caravaggio: "retrato de uma cortesã chamada Filide".

Não foi esta, de resto, a única vez que Filide Melandroni posou para Michelangelo Merisi da Caravaggio. Depois daquele retrato, ou em simultâneo com ele, Filide aparece num óleo hoje exibido no Museu Thyssen de Madrid, Santa Catarina de Alexandria, no qual a virtuosa mulher - que durante uns tempos a Igreja mandou retirar do calendário dos santos, por haver a suspeita de nunca ter existido - surge junto à roda em que iria ser martirizada às ordens do imperador Galério Maximiano. Reza a lenda que a roda se despedaçou mal Catarina se aproximou dela, e assim no-la mostra Caravaggio. O patrono da encomenda, o cardeal Francesco Maria Bourbon del Monte Santa Maria, homem de mão dos Médici, era muito devoto de Santa Catarina de Alexandria e de Maria Madalena, facto tanto mais curioso quanto Filide nascera em 1581, em Siena, a cidade de outra Catarina santa, padroeira de Itália. E facto tanto mais curioso, também, porque Maria Madalena surgiu amiúde na vida de Filide, até ao fim, constando dos bens do seu legado um pequeno quadro, quase miniatura, a figurar a pecadora arrependida - como ela.

Filide Melandroni, que ficou órfã de pai muito novinha, foi levada pela mãe, com o resto da família, até Roma, onde uma tia já servia às mesas de uma taberna. Na Cidade Eterna, hospedaram-se na Via dell'Armata, nas imediações da igreja de... Santa Catarina. Não passou muito tempo que a mãe a colocasse nos desgraçados caminhos da prostituição. Em 1594, há notícia de ter sido presa, juntamente com uma colega de ofício, por violar as regras do recolher obrigatório e por oferecer os seus serviços na via pública, ao invés de se resguardar, como devia, no hipócrita recato de um bordel. Tinha ela 13 anos.

Depois, subiu a pulso na vida, fez-se cortesã afamada, com casa em Ortaccio, já então o gueto da prostituição romana. Entre os seus clientes figuravam cardeais e banqueiros, porventura o cardeal Del Monte, patrono de Caravaggio, e certamente o banqueiro Vincenzo Giustiniani, outro dos benfeitores do pintor. Não se sabe se Michelangelo a conheceu através dos seus mecenas ou por meio da vida viciosa e excessiva que sempre teve. O que se sabe, de ciência certa, é que Filide foi seu modelo para muitos quadros de finais da década de 1590, ou até de um pouco antes, pois há quem sustente que foi ela que posou para Madalena Penitente, tela de 1594-95, que, por sua vez, inspirou o assombroso Repouso na Fuga para o Egipto, pintado pela mesma altura.

Contudo, a mulher retratada nesses dois quadros parece ter sido outra prostituta, Anna Bianchini. Diz-se que Anna chegou a ser chicoteada em público, uma das punições da época para as mulheres de má sorte, e, não por acaso, há muitas mensagens à clef na Madalena Penitente que sustentam a hipótese de a obra ser uma denúncia dos martírios infligidos às prostitutas pelas autoridades da altura: no quadro, Madalena tem as mãos e o rosto inchados, senta-se prostrada num banquinho, tendo ao lado um colar de pérolas desfeito e um vaso de vidro com um líquido que aparenta ser um unguento, o unguento com que Madalena sarou as chagas nos pés de Cristo ou o unguento que Anna Bianchini usou para curar as feridas dos açoites sofridos em público.

É quase indiferente saber-se se aquela Maria Madalena é Anna Bianchini ou Filide Melandroni já que, ao cabo e ao resto, ambas partilharam o mesmo e cruel destino. Uma e outra conheciam-se, aliás, desde muito novas: Filide e Anna tinham vindo juntas para Roma, as suas mães colocaram-nas na prostituição eram elas quase crianças. Filide foi presa aos 13 anos, Anna foi encarcerada na mesma ocasião, tinha 14 anos. Depois, seguiram vidas conjuntas, frequentavam ambas o Palazzo Madama, a residência romana do cardeal Del Monte, onde Caravaggio também morava. Por volta de 1598, este colocou as duas numa pintura sacra, Marta e Maria Madalena, e, entre tantos sucessos extraordinários da sua vida em chiaroscuro, não é pouco extraordinário o facto de Michelangelo Caravaggio ter por hábito usar mulheres de má nota como modelos de personagens bíblicas e de santas virtuosíssimas - até da Virgem! Naquele quadro, Marta está prestes a converter a irmã, convencendo-a abandonar os esplendores e misérias das cortesãs, não sendo por acaso que Madalena tem junto de si um espelho convexo, símbolo de vaidade, e está vestida de vermelho, com uma camisa branca, tal qual como no Retrato de Uma Cortesã e em Santa Catarina de Alexandria.

Filide surge também a decapitar Holofernes, em Judite e Holofernes, pintado circa 1599, um quadro sanguinário, insuportável de ver, representando uma mulher a vingar-se de um homem, de todos os homens, e é possível, até provável, que Filide Melandroni tenha servido de modelo a muitos outros quadros de Caravaggio, pois vários deles perderam-se ou foram destruídos.

Não muito depois, Filide caiu em desgraça, ou assim parece. Em 1599, o Vicariato de Roma declarou-a cortigiana scandalosa por, não se sabe como nem porquê, ter recusado o sacramento da comunhão. No final desse ano, foi detida por ter na sua posse uma arma branca, a qual lhe tinha sido dada pelo seu chulo, Ranuccio Tomassoni, um jovem de famílias distintas, oriundo de uma dinastia de mercenários e de soldados com sólidas ligações aos poderosos Farnese. Um dos irmãos de Ranuccio servira como general nos exércitos pontifícios, outro lutara na Flandres. Quanto a ele, e apesar de andar sempre com uma espada à cinta, nunca cumprira deveres militares, alegando estar ao serviço do cardeal Cinzio Aldobrandini, quando, na realidade, se dedicava antes a explorar uma mão-cheia de prostitutas. Entre as mulheres que tinha por conta, encontravam-se Filide Melandroni e a sua eterna amiga, Anna Bianchini, a Madalena e a Marta do quadro de Caravaggio. E, além delas, Prudenza Zacchia. É com esta que, no final de 1600, Filide tem um confronto violento, quase mortal. Filide apanhou-a na cama com Ranuccio e, enraivecida, tentou matá-la com um punhal, mas um outro homem presente em cena conseguiu retirar-lhe a arma, com ela aos gritos de "sua puta, vou deixar-te cicatrizes pelo corpo todo!", tal como consta dos autos do inquérito policial, ainda hoje conservados nos arquivos e transcritos por Andrew Graham-Dixon na sua fascinante biografia Caravaggio. A Life Sacred and Profane, fruto de uma investigação colossal, de mais de uma década.

Pouco depois desse incidente, e na companhia de outra prostituta, Tella Brunora, Filide voltou a atacar a rival, desta feita perto da casa onde esta morava, junto ao Recolhimento das Convertidas. As agressoras irromperam pela casa dentro, pontapearam a mãe de Prudenza, Filide agarrou-se à inimiga pelos cabelos, arrancou-lhos, golpeou-a numa mão, talvez com o intuito de a atingir no rosto, deixando-lhe para sempre um sfregio, que na gíria do submundo romano significava a mais ignominiosa das marcas, a cicatriz e o ferrete indiciadores de má vida, ademais feitos na cara, impossíveis de dissimular.

Caravaggio, por uma vez na vida, não esteve presente nessa refrega. Mas Ranuccio, o chulo de Filide, seria morto pelas suas mãos, num trágico dia de Maio de 1606. Diz-se que o homicídio foi involuntário, que Michelangelo queria apenas castrar Ranuccio, mas que a faca traiçoeira se desviou do caminho, atingindo a femoral, com hemorragia fatal. Opinam uns que tudo se deveu a uma estúpida disputa ao ténis, afirmam outros que a desavença era antiga, fruto de dívidas avultadas do pintor ao proxeneta. É quase certo que no seu ânimo deve também ter pesado o facto de Ranuccio viver do lenocínio, abusando, explorando e não raras vezes agredindo as suas mulheres, entre as quais Filide, a bela Melandroni, com quem Caravaggio teve muito provavelmente uma relação amorosa ou, pelo menos, carnal.

Michelangelo teve de fugir de Roma, com a cabeça a prémio. Andou por Nápoles, por Malta, pela Sicília, envolveu-se em muitas outras e acesas rixas, uma das quais acabou por lhe custar a vida. A infecção de uma ferida causada por uma espada matou-o em Porto Ercole, em 18 de Julho de 1610, com 38 anos.

Filide morreu também com essa idade, 37 ou 38 anos, muito provavelmente vítima de uma doença venérea, o mal que levou igualmente, e igualmente muito novo, Onorio Longhi, o grande e amigo do pintor. Nos últimos momentos de vida, Filide Melandroni teve junto de si, confortando-a, o retrato que dela fez o seu amigo e amante. Apesar dos muitos legados pios que exarou no testamento, a Igreja negou-lhe os últimos sacramentos e não permitiu que fosse sepultada em campo-santo, mantendo até ao fim o anátema lançado sobre ela, cortigiana scandalosa.

Quanto ao seu retrato, pintado por Michelangelo Merisi da Caravaggio, foi levado para longe, para Berlim, onde acabou sendo destruído pelo fogo em 1945, durante a última Guerra Mundial.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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