Filho, vamos mandar uma foto ao pai!

Em plenas férias, eis que ouço esta frase. Parece banal, uma mãe e uma criança na praia a tirarem fotografias que, de seguida, enviam para o pai que não está presente. Tendo em conta que falamos de pais separados, esta situação de banal não tem mesmo nada.

Defeito de profissão, estou mais habituada a conflitos e a discussões entre os pais que outrora se amaram e que agora se odeiam de morte. E, regra geral, os filhos estão no meio desse ódio, que tende a agudizar-se nas férias de verão. A divisão dos dias de férias, contados ao segundo, as transições nem sempre pacíficas, as deslocações e as retenções ilícitas (conhecidas como raptos parentais) e mais um sem-número de problemas são potenciados nesta época do ano. E as crianças, que têm o direito a conviver com ambos os pais de forma tranquila e positiva, a descansar depois de meses e meses de escola e atividades e a brincar em liberdade, veem-se prisioneiras e amarradas a conflitos de lealdade. Já várias crianças me confidenciaram que preferiam não ter férias para não terem de experienciar o calvário em que os pais as conseguem transformar.

Neste contexto, ouvir uma mãe sugerir ao filho que envie fotografias ao pai ausente é uma bênção. Não conheço esta mãe, muito menos a avaliei, mas de olhos fechados afirmo que é uma mãe sensível e centrada no bem-estar do filho, colocando o interesse deste acima de qualquer outro. É uma mãe que compreende a importância que o pai tem no bem-estar da criança e que percebe, também, a felicidade imensa que este pai irá sentir ao receber uma foto do filho.

Não raras vezes, os conflitos parentais têm início na fase de gravidez ou logo após o nascimento da criança, momentos de stress acrescido que acabam por dar maior visibilidade a diferenças que nem sempre são, depois, bem negociadas. Falamos das crenças sobre o papel da mãe e do pai, dos padrões educativos e da relação com as famílias de origem, entre tantas outras questões. Assim, mais do que uma intervenção parental na fase da separação ou divórcio, seria importante apostar em intervenções preventivas, ajudando as famílias a ultrapassar as diferentes tarefas de desenvolvimento ao longo do seu ciclo de vida. Precisamos de serviços eficientes, rigorosos e céleres que olhem para a família como um todo, e que não se limitem a elaborar relatórios que mais não fazem do que reportar o ponto de situação. Porque o tempo passa e o nosso tempo não é o tempo das crianças. As crianças importam e os seus direitos também.

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

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