Eu, poeta áulico, me confesso

Todos os historiadores sérios sabem que a escrita da história nunca pode ser neutra, só pode ser rigorosa. Que Rui Ramos tenha como modelo político a ditadura de João Franco não retira qualidade e rigor à sua excelente biografia de D. Carlos. Já Caetano Beirão, que defendia D. Maria I contra Pombal e D. Miguel contra D. Pedro, nos parece hoje ligeiramente ridículo, até porque na verdade nada trouxe de novo ao conhecimento histórico.

A historiografia é necessariamente parcial nas suas interpretações e só lhe podemos exigir que não falsifique dados. Starobinski recorda-nos, num excelente ensaio sobre a nostalgia, que lemos necessariamente os autores e os documentos do passado com olhares e perspetivas que eles não podiam ter - e a este propósito confronta-nos com a diferença entre a nossa reação espontânea de adesão e empatia a alguns textos de Rousseau e Senancour com aquilo que esses mesmos autores pensavam (usando o olhar da ciência da época) sobre a nostalgia como doença. É claro que os textos sobrevivem ao tempo e é por isso que temos literatura e arte. Mas não é mau lembrarmo-nos de como cada tempo olhou diferentemente para os mesmos textos.

Isto não pode significar uma abdicação moral, porque de Las Casas a Wilberforce, de Vieira a Sá da Bandeira, assinalamos o repúdio que certas práticas conheceram naquelas mesmas épocas em que eram mais consensuais. Mas não podemos aplicar estritamente os nossos quadros morais e intelectuais a um tempo estranho ao nosso, isto sem esquecer que sempre houve quem se inquietasse com a injustiça e a opressão em todos os tempos históricos. De Espártaco a Martin Luther King.

Vivemos hoje um debate público em que diferentes leituras da história servem de armas de combate a opostas tendências políticas. Custa-me elogiar aqui um discurso do Presidente da República, porque é sabido que fica mal a um poeta louvar os poderes públicos. Arriscando-me a perder leitores e desafiando críticos impiedosos (até porque a minha alma de poeta está já condenada, ao ter exercido em tempos funções públicas), não deixo de salientar a visão estratégica que Marcelo Rebelo de Sousa (em quem não votei) mostrou, ao apontar esta cisão maniqueísta nas visões do nosso passado colonial como um problema de coesão da nossa sociedade. Não que devamos escamotear as diferenças: mas não podemos, por simplismo, transformá-las em rígidas confrontações.

Karl Marx, que escreveu que "a violência é a parteira da história", riria a bom rir do angelismo moral que hoje prevalece em certas análises do passado. Nos seus escritos sobre a Índia, ao lado da denúncia e da revolta contra os massacres da colonização inglesa, ele reconhece a dialética que leva a que a sociedade indiana tenha entrado na modernidade (na modernidade, atenção, não na civilização, que já a tinham e própria) através dessa mesma violência e desse mesmo confronto. Os subaltern studies dos intelectuais indianos têm enfrentado com alguma estranheza essa agrura da dialética, mas a questão permanece.

Marcelo Rebelo de Sousa é inequívoco no juízo negativo que faz da realidade colonial e do mito do império. Mas adverte-nos, como bom conhecedor da dialética que é, que a autoflagelação e o zelo expiatório em nada nos ajudarão a aprender a olhar com os olhos dos antigos colonizados e a saber pensar com eles o futuro. Fez assim o Presidente um discurso notável em prol da coesão e da abertura inclusiva da nossa sociedade e da clareza sobre as nossas visões do passado.

Diplomata e escritor

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