"Este país está a precisar é de um militar"

A frase deste título ouvi-a a semana passada num dos fóruns da comunicação social com público. Ela tem mais peso agora que nas milhentas vezes que foi dita quando a pré-falência do país fez regressar o FMI, porque parece haver cada vez mais pessoas com uma genuína vontade de viver num regime autoritário. Trocam a liberdade pelo fim da "pouca-vergonha" que entendem existir, seja na justiça, que deixa "os poderosos viver na impunidade", ou na falta de segurança, que acontece por haver "pessoas diferentes (imigrantes ou ciganos) que se recusam viver como nós".

Nós sabemos por que é que há cada vez mais pessoas disponíveis para votar na extrema-direita. À cabeça está a existência de problemas que nunca são resolvidos, sejam os de longa data, sejam os mais recentes, e que se tentam resolver com mais um grupo de trabalho que repete soluções erradas, como é o caso dos contágios na comunidade imigrante em Odemira, contribuindo para o aumento da intolerância em relação a essa comunidade. No início do ano, o candidato do Chega foi terceiro na freguesia de São Teotónio, com quase 10% dos votos, e foi segundo na Longueira/Almograve, com 17,4%.

É uma infeliz coincidência que o ano de 2019, em que o governo procurou tapar o sol com uma peneira em relação às miseráveis condições de habitação dos imigrantes que trabalham nas estufas, tenha sido o mesmo ano em que o Vox se afirmou pela primeira vez em Espanha, contra os imigrantes do mar de plástico da Andaluzia. Já se pode dizer que é também a esquerda, neste caso um governo de esquerda, que tem ajudado ao crescimento da extrema-direita, porque gosta de empurrar para debaixo do tapete todos os problemas que não têm solução fácil?

Não estamos como a França (ainda!?), com uma extrema-direita capaz de lutar pela vitória para governar o país, nem com militares (alguns no ativo) avisando o país para o risco de "uma guerra civil", mas temos as forças de segurança altamente infiltradas pela extrema-direita e atuando muitas vezes às margens da lei contra "as hordas dos subúrbios". E o que vemos é um comandante que parece mais preocupado em castigar um antigo sindicalista e ativista antirracismo por ter chamado "aberração" ao líder do Chega que em combater o evidente racismo que corrói a confiança que todos os cidadãos, e não apenas os que sonham com um regime autoritário, devem ter nas suas forças policiais.

Em 2017, estava ainda Passos Coelho da liderança, e a mim parecia-me que o impossível, existência de um partido populista de direita com êxito eleitoral, era possível. Defendi-o nas páginas deste jornal, argumentando que o eleitorado para apoiar ideias nacionalistas, xenófobas e racistas sempre existiu, só faltava quem soubesse "vestir bem" esse partido. A caixa de Pandora há muito que foi aberta, há eleitorado para fazer do Chega um partido capaz de contribuir para uma maioria de direita, juntando-lhe os deputados do Iniciativa Liberal e do CDS. Parece impossível? Basta imaginar que oito anos a chefiar o governo (só Cavaco Silva teve mais tempo em democracia) pode ser mais do que suficiente para a paciência de António Costa. Tendo de mudar de líder, tal como aconteceu ao PSD em 1995, o PS não vale o que parece agora que vale. E o resto da esquerda andará ocupada a apanhar os cacos, à procura de um eleitorado menos disponível.

Jornalista.

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