Estabilidade? Para que serve? Nada!

Nas últimas décadas os políticos portugueses têm insistido que a estabilidade política, as maiorias absolutas, o levar as legislaturas até ao fim, são essenciais para o desenvolvimento económico do país. Mas será assim?

O certo é que os poucos portugueses que votam têm permitido à classe política a estabilidade que pede, concedendo maiorias absolutas ao PSD e ao PS quer sozinhos, quer coligados. A estabilidade tem sido total.

As legislaturas têm completado o seu ciclo de vida, os Governos mantém-se no poder o tempo constitucionalmente previsto, a estabilidade reina absoluta mas o país em vez de se desenvolver, como prometido, tem vindo a definhar, a estagnar e a atrasar-se em relação aos seus pares europeus, aproximando-se, cada vez mais, do modelo latino-americano de desigualdades abissais e urbes rodeadas de favelas habitadas por trabalhadores pobres. O salário médio em paridade de poder de compra português é hoje inferior a todos os países da União Europeia com exceção da Bulgária e já próximo do salário médio do Chile.

Na verdade a estabilidade apenas tem contribuído para a desresponsabilização dos governos. Façam o que fizerem manter-se-ão inabalados à frente do país até ao último dia previsto. Essa desresponsabilização afasta os portugueses da participação cívica, pois nada do que possam reivindicar será atendido.

Sem voz na condução do seu destino, as pessoas retiram-se para a esfera privada ou tomam o caminho da emigração. A teoria do voice and exit Albert O. Hirschman tem plena confirmação entre nós. Sem voz a população prefere retirar-se.

Recordemos que a teoria de Hirschman, exposta no seu livro Exit, Voice and Loyalty, hoje um clássico, defende que face ao declínio de benefícios sociais, profissionais ou a qualquer situação de desconforto as pessoas são confrontadas com duas opções: afirmar a sua opinião, manifestar-se, agir, procurando reverter a situação (voice) ou quando esta alternativa não é possível, sair, retirar-se ou mesmo emigrar (exit).

Hirschman constatou que a opção pela saída (exit) é destrutiva para empresas, organizações e sociedades, promove a passividade, a aceitação acrítica, a ignorância, a emigração dos mais empreendedores e dos mais ativos e leva, inexoravelmente, ao declínio e ao atraso.

E que propunha Hirschman em alternativa à estabilidade? Naturalmente o desequilíbrio e a instabilidade, situações que estimulam o crescimento e permitem a mobilização de recursos principalmente em países menos desenvolvidos e que não têm capacidade de tomar boas decisões políticas.

Quando o mundo ferve em instabilidade e mudança, deixando cair com estrondo o velho, em que novas indústrias emergem, novos produtos irrompem, novas preocupações ambientais e sociais se afirmam, os arautos da estabilidade tornam-se um peso morto para o desenvolvimento de Portugal. A estabilidade só nos atrasa.

Precisamos sim da instabilidade que devolva a voz aos portugueses, que oiça as associações patronais mas também os sindicatos, os jovens, as populações racializadas, que seja mais inclusiva, que fomente a mudança, que permita a tentativa e erro, que combata a corrupção, que seja aberta à ciência, a experimentação, ao novo e ao diferente, que construa um novo Portugal.

Só com Voz é que os países avançam.

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