Entre o medo e a esperança

Science and technology revolutionize our lives, but memory, tradition and myth frame our response.

Arthur M. Schlesinger

A liberdade vigiada em que vivemos, vai quase para dois anos, veio trazer ao primeiro plano das nossas preocupações um tema com que antes poucos se confrontavam no seu quotidiano: a ciência.

A extraordinária rapidez com que, face a um vírus novo, de perfil reconhecível, mas de carácter e efeitos desconhecidos e imprevisíveis, a ciência soube encontrar a defesa nas vacinas mostrou o avanço do nosso conhecimento; mas as sucessivas tergiversações, avanços e recuos, medidas e contramedidas com que as autoridades de todos os países fizeram face à pandemia mostrou o atraso correspondente da nossa capacidade de decisão.

Foi difícil aos políticos assumir a essencial incerteza com que progride o trabalho científico e foi difícil aos especialistas resistir à tentação de saltar sobre todas as incertezas para vir a público assumir visões dogmáticas, baseadas em impressões mais ou menos fundamentadas ou em meros cálculos abstratos. A ciência progride por tentativa e erro, a decisão política tem por dever inspirar confiança. Uma e outra conhecem caminhos diferentes.

Não podemos descartar o desconhecido e o risco, mas é nosso dever não deixar alastrar a insensatez. O escasso apelo do negacionismo na nossa sociedade mostrou que os portugueses mantêm o bom senso, mesmo quando os matemáticos lhes preveem mais vítimas mortais do que habitantes tem o país e as autoridades de saúde mudam de doutrina sem admitir os erros. O bom senso das pessoas e a extraordinária dedicação dos profissionais de saúde permitiram que a calma se mantivesse e impediram a exploração demagógica do medo. Conseguiremos continuar assim?

Esperamos sempre acordar um dia sem esta realidade à nossa volta, como os pesadelos se dissolvem ao despertar. A verdade é que vamos ter de aprender a viver com este vírus, como nos habituámos a viver com todos os outros micro-organismos que desde sempre nos acompanham.

Na visão otimista de Marx, "a humanidade só se coloca as questões que consegue resolver". A gestão a que temos assistido das crises financeiras e da tragédia climática levou-nos a pôr em dúvida este otimismo. A gestão da crise sanitária mostrou uma vez mais como o nosso cérebro de Homo sapiens não está a acompanhar o extraordinário avanço do nosso conhecimento científico.

José Mariano Gago introduziu em Portugal a mais ousada reforma dos nossos tempos. A nossa capacitação científica cresceu para níveis nunca antes sonhados. Mas a ciência está sempre à frente da sociedade. As empresas e os decisores políticos têm de estar à altura da ciência que alcançámos e não procurar instrumentalizá-la em estratégias de curto prazo. Pôr as empresas a decidir as opções da investigação científica é tão errado como pôr os cientistas a tomar decisões políticas.

Edgar Morin, de quem festejamos os lúcidos e produtivos 100 anos, alertou-nos para o conceito-chave dos tempos em que vivemos: a complexidade. Só entendendo até ao fim que nenhum fenómeno se pode reduzir a um algoritmo matemático, a um cálculo de rentabilidade ou a um mero posicionamento tático, poderemos enfrentar a vida com todos os instrumentos que a ciência foi capaz de nos proporcionar. Sem esquecer nem o ponto de partida na incerteza, que é fulcral na atividade científica, nem o princípio da confiança, que é essencial à decisão política.

Diplomata e escritor

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