Entre a catástrofe e o caos

É pior, muito pior do que pensa. A frase de abertura de A Terra Inabitável, livro de David Wallace-Wells, poderá parecer teaser publicitário ou aviso profético, mas condensa bem tudo o que ora vivemos. Não passa uma semana, sequer um dia, em que não tenhamos notícias sobre o clima do planeta, cada vez mais desgovernado. E o mais espantoso de tudo é que, entre a inacção dos governos e o alheamento dos cidadãos, tudo isto se sabia há muito, e poderia ter sido evitado com calma e vagar, com menores danos para todos. Agora, é tarde.

O mundo aqueceu 1º C desde a Revolução Industrial e a esperança posta no Acordo de Paris, assinado em 2016, é que, com um esforço inaudito e enormes sacrifícios para todos, consigamos limitar o aquecimento global abaixo de 2º C, algo que, na melhor das hipóteses, adiará o desastre para o longo prazo, em que só um milagre nos salvará da extinção das barreiras de coral das zonas tropicais, da subida de vários metros do nível do mar, da desertificação completa do golfo Pérsico. Com um aquecimento de 3º C, o cenário que muitos especialistas consideram ser o mais realista e plausível, o desastre não ocorrerá já no longo prazo, mas a breve trecho: florestas a nascerem no Ártico, abandono da maioria das cidades costeiras, fomes em massa, guerras por água e comida, movimentos migratórios como nunca se viu. Com 4º C, a Europa viverá em seca permanente, vastas zonas da China, da Índia e do Bangladesh passarão a ser desertos, toda a Polinésia será engolida pelos oceanos. A subida das temperaturas para 5º C implicará a extinção da espécie humana. O que agora está em causa já não é termos um futuro melhor do que o presente, é decidirmos tão-somente se iremos enfrentar uma catástrofe, ficando abaixo dos 2ºC, ou se teremos o completo caos, com o provável fim da civilização humana. Entre a catástrofe e o caos, não há alternativa.

No passado Novembro, a COP26 tentou limitar a subida das temperaturas a 1,5º C, dizendo os cientistas que, ao ritmo actual, conseguiremos ficar-nos, no melhor dos cenários, por 2,4º C. Mas que saiu de Glasgow? Nada, quase nada:

− quanto às emissões de CO2, nada de concreto se decidiu, comprometendo-se os países tão-só a voltarem a reunir-se para debater o assunto;

− quanto ao uso de carvão, responsável por 40% das emissões anuais de CO2, China e Índia conseguiram introduzir uma alteração de última hora, fazendo que, no acordo final, em vez de "eliminação", se fale apenas em "diminuição" a prazo do uso desse combustível ("imploro-vos, aprovem este texto, os nossos filhos e netos não nos perdoarão se hoje falharmos", suplicou Frans Timmermans, vice-presidente da Comissão Europeia, mas nem isso demoveu a intransigência criminosa de Pequim e Nova Deli);

− quanto ao apoio à transição energética dos países menos desenvolvidos, as vítimas primeiras do aquecimento global, a promessa feita em 2009 de lhes transferir 100 mil milhões de dólares/ano nunca foi cumprida, obrigando agora a uma nova meta ainda mais ambiciosa - um trilião de dólares - e, como tal, muito difícil de pôr em prática;

− quanto às emissões de metano, cerca de cem países alcançaram um acordo histórico, comprometendo-se a reduzir 30% das emissões até 2030; mas, uma vez mais, os principais poluidores, China e Índia, ficaram fora do compromisso, havendo apenas a remota esperança de que venham a aderir no futuro;

− quanto aos subsídios e apoios estatais aos combustíveis fósseis (carvão, petróleo, gás natural), os líderes mundiais comprometeram-se vagamente a acabar com eles, mas não estabeleceram prazos ou metas para tal;

− quanto à deflorestação, houve a promessa de acabar com ela até 2030, mas não se designaram quaisquer instrumentos que permitam fiscalizar no terreno os progressos feitos ou sancionar os prevaricadores.

O maior problema, transversal a todas as áreas (florestas, descarbonização, etc.), é que poucos são os países que se comprometeram a concretizar juridicamente as metas da COP26, existindo, quando muito, promessas diplomáticas ou piedosas declarações de intenções. E, em resultado disso, a maioria das metas da COP26 são self-policed, isto é, aplicadas e geridas por cada país, sem uma entidade internacional capaz de controlar a sua efectivação. Cada um por si, salve-se quem puder - a mais cega e estúpida das estratégias para lidar com problemas globais, como a pandemia tem exuberantemente mostrado.

Um livro avassalador de Nathaniel Rich, Losing Earth. The Decade We Could Have Stopped Climate Change, resultado de uma grande reportagem para o The New York Times, disponível online, demonstra, de forma esmagadora, que, ao contrário do que disseram e dizem muitos negacionistas, o aquecimento global é uma verdade científica, incontroversa, há muito conhecida. Em 1859, no auge da Revolução Industrial, o físico escocês John Tyndall, concluiu que, uma vez que as moléculas de dióxido de carbono absorvem o calor, uma variação na concentração atmosférica de CO2 implica alterações no clima, o que permitiu a Svante Arrhenius, químico sueco e futuro Nobel, afirmar em 1896 que a combustão de carvão e petróleo para produção em massa de energia poderia aumentar as temperaturas do planeta, efeito que, segundo ele, só seria observável no longo prazo. E, de facto, em 1939, o engenheiro britânico Guy Stewart Callendar pôde confirmar que os cinco anos anteriores tinham sido os mais quentes de que havia registo.

Há quem julgue que o aquecimento global é uma moda recente, sobre a qual ainda não existem dados precisos. Mentira descarada. Em Fevereiro de 1979, na primeira Conferência Mundial do Clima, reunida em Genebra, cientistas de 50 países foram unânimes em declarar que havia "necessidade urgente" de passar à acção. Meses depois, em Junho de 1979, na Cimeira do G-7, em Tóquio, os líderes mundiais comprometeram-se a reduzir as emissões de carbono (entre os signatários, Margaret Thatcher, convém lembrá-lo, que em 1988, alertou para o aquecimento global num discurso à Royal Society). Já antes, muito antes, em 1963, Lyndon Johnson, logo duas semanas após tomar posse como presidente dos EUA, enviara uma mensagem ao Congresso em que dizia que, devido à queima de combustíveis fósseis, a humanidade tinha "alterado a composição da atmosfera a uma escala global". Ciente do problema, evidenciado pela crise petrolífera de 1973, Jimmy Carter mandou instalar 32 painéis solares na Casa Branca e apelou ao uso de energias renováveis, sabendo-se desde há muito da relação directa entre combustíveis fósseis e efeito estufa. Nos anos 1950, a Humble Oil, predecessora do gigante petrolífero Exxon, e o American Petroleum Institute, maior associação comercial de petróleo e gás natural dos EUA, produziram relatórios sobre a alarmante concentração de dióxido de carbono na atmosfera, um problema para que, em Dezembro de 1957, Edward Teller, o controverso "pai da bomba de hidrogénio" chamou a atenção dos membro da American Chemical Society, aviso repetido em 1959 perante os representantes máximos da indústria petrolífera norte-americana. Não era uma questão falada apenas entre cientistas, empresários e políticos, mas conhecida dos cidadãos: em 1958, um dos mais populares programas de divulgação científica da América transmitiu um filme produzido por Frank Capra, The Unchained Goddess que abordava explicitamente as alterações climáticas geradas pelo homem devido à libertação de CO2 na atmosfera, tendo o filme sido mostrado durante décadas aos alunos de escolas americanas.

Acrescente-se o essencial: o aquecimento global não era um tema de esquerda ou de direita, de democratas ou de republicanos, bastando lembrar que Ronald Reagan, apesar do seu cadastro negro em matéria ambiental, assinou com Gorbachev, em Maio de 1988, uma declaração em que EUA e URSS, os dois maiores emissores de CO2, se comprometiam a cooperar em matéria de alterações climáticas.

O mundo mudou depois disso, e para pior. Acidentes como Chernobyl puseram em causa o nuclear, incentivando os combustíveis fósseis, e a subida à presidência do George H. Bush (pai), um homem com fortuna feita no petróleo, levou à Casa Branca um indivíduo sinistro, que bem mereceria ser julgado por crime contra a humanidade, John Sununu, seu chefe de gabinete, que tudo fez para sabotar as medidas de combate ao climate change, tendo conseguido impedir que, em Novembro de 1989, 67 países assinassem um acordo no qual se comprometiam a reduzir 20% das emissões até 2005. Farejando a mudança a seu favor, as indústrias petrolífera e automóvel abandonaram pesquisas sobre descarbonização e passaram a investir somas colossais em lóbi e em propaganda para desacreditar cientistas, influenciar e comprar políticos, promover as falsidades negacionistas. A emergência económica da China e da Índia deu a estocada final na possibilidade de se evitar o desastre. Depois, como se não bastasse, veio a tragédia de Trump, e a saída dos EUA do Acordo de Paris, que agora Joe Biden oportunamente revogou. Para se ter uma ideia como este problema é antigo, refira-se que em 1987 - há 35 anos, portanto -, Joe Biden, então um senador democrata pelo Delaware, apresentou um projecto de lei para que os EUA adoptassem uma estratégia sobre as alterações climáticas.

Conhecemos o problema há 50, 70 anos, ou mais. O pouco que se fez em décadas não deixa ninguém seguro quanto ao que se fará agora e, como sempre, as reacções mais comuns oscilam entre o pavor paralisante, a recusa da realidade e dos factos, o egoísmo individual e geracional ou a confiança escapista de que a ciência e a tecnologia acabarão por evitar o pior, esquecendo que a questão do aquecimento global não é científica ou tecnológica, mas política, eminentemente política, e que só haverá "soluções" técnicas se existir vontade dos governantes em promovê-las e financiá-las em larga escala. A par disso, é inevitável que façamos enormes sacrifícios, mudemos radicalmente de estilos de vida e abdiquemos de confortos e padrões de bem-estar, coisa que nenhum líder político gosta de dizer aos eleitores. Ora o que vemos, contudo, é justamente o inverso, bastando abrir dois jornais ao calhas: o número de carros em Portugal é o maior em dez anos e em 2020 bateu-se o recorde da década, com 541 automóveis por mil pessoas (Expresso, de 14/1/2022): e, no final do ano, 93,7% do território nacional estava sob seca, com Dezembro de 2021 a ser o quarto mês mais quente em 90 anos (Público, de 7/1/2022).

Na miserável campanha eleitoral a que assistimos, tem-se discutido de tudo, até a prisão perpétua (!), menos aquela que deveria ser a prioridade das prioridades, o problema n.º 1 de Portugal e do mundo. Os debates televisivos converteram-se num combate de fotocópias com trocas de farpas agudas, prometeram-se mil benesses, aumentos nos salários e pensões, mas não se falou de alterações climáticas nem dos sacrifícios que teremos de fazer para as enfrentar. Talvez seja demais pedir a um político que faça campanha a dizer aos eleitores que terão de largar os automóveis e as viagens de avião, diminuir o consumo de carne e água, preparar-se para o muito mau que aí vem, bem pior do que julgamos. Por isso, até por isso, esta questão só poderá ser enfrentada em unidade e consenso, para que ninguém a use como trunfo ou arma de arremesso político e nenhum populista venha tirar créditos da revolta dos cidadãos a quem serão impostas medidas drásticas (os gilets-jaunes, lembremos, foram uma rebelião contra a transição energética). É urgente que, sob a égide do Presidente da República, todos os partidos, patrões e sindicatos celebrem um pacto de regime, compromisso de futuro sobre alterações climáticas. Se falharmos hoje, ninguém nos irá perdoar.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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