Enquanto isso, na América Latina – 3

As mudanças progressistas, no sentido amplo e não isento de controvérsias, que estão a acontecer na América Latina nos últimos dois anos não devem ser motivo de ufanismos pelos que se identificam com esse campo político. Além da necessidade de discutir internamente os limites e ambiguidades de algumas dessas mudanças, assim como as possibilidades de expansão e modernização das propostas populares nos diferentes países, seria ingenuidade acreditar que esse sentido é unívoco.

De facto, o conservadorismo continua forte e atuante na região, o que, obviamente, não é novo, dada não só a tradição histórica local, como certas tendências políticas globais, no atual momento vivido pela humanidade.

O que está a passar-se no Peru - o caso mais recente de um país sul-americano onde os cidadãos derrotaram nas urnas as forças direitistas - comprova essa leitura. Até agora, as forças conservadoras continuam a esforçar-se para impedir a formalização da vitória de Pedro Castillo, alegando "fraudes" que nenhum observador, nacional ou internacional, comprovou.

As notícias que chegam desse país mencionam mesmo uma tentativa de golpe "branco" em preparação. A ideia é simples: substituir o atual presidente do Congresso por um outro alinhado com as forças derrotadas nas urnas, para, depois disso, escolher novos juízes para o Tribunal Constitucional, os quais estariam prontos a anular as recentes eleições. Mas a sociedade peruana parece pronta a evitar isso.

Assim, no final da semana passada, milhares de apoiantes do candidato vencedor ocuparam as ruas de Lima, a capital do país, para se manifestarem contra essa tentativa de golpe. Na última terça-feira, 15, o Conselho de Estado do Peru, composto pelos chefes dos três poderes e dos órgãos constitucionais autónomos, emitiu uma nota rechaçando uma eventual "rutura constitucional" e pedindo que os resultados que dão a vitória a Pedro Castillo sejam respeitados.

Além dessas tentativas de impedir a consumação das mudanças políticas progressistas no Peru, decididas pelos eleitores, o conservadorismo latino-americano continua forte em outros países da região. Não hesito em mencionar, nesse sentido, o caso da Nicarágua, onde o presidente Daniel Ortega, ex-revolucionário e líder da Frente Sandinista, encontrou um método "original" para vencer mais uma vez as eleições: mandou prender todos os seus principais concorrentes, impedindo-os de disputar o pleito. Um escândalo, que consuma a desilusão dos antigos admiradores da Revolução Sandinista, em todo o mundo.

Os outros países da América Latina onde as forças conservadoras continuam no poder e a manter influência são Equador, Colômbia e Brasil. No primeiro, a esquerda não conseguiu unir-se e, por isso, foi alijada do poder, tendo sido derrotada nas últimas eleições, realizadas em abril deste ano, por uma pequena margem de votos.

Na Colômbia, o governo do presidente Iván Duque, considerado de extrema-direita, pretende levar a cabo uma brutal reforma fiscal de pendor neoliberal, aumentando os impostos sobre a renda e os produtos básicos e subindo os custos dos serviços públicos, o que atingirá diretamente os grupos mais pobres e a classe média. Desde o final de abril, a população está nas ruas, manifestando-se contra essas reformas. As autoridades reagiram violentamente, causando inúmeros mortos, mas a situação continua tensa e indefinida.

Por fim, o Brasil. Apesar de enfrentar uma crescente oposição popular, sobretudo por causa da sua desastrosa gestão da pandemia da covid-19, que já matou mais de 500 mil pessoas, o presidente Jair Bolsonaro continua a contar com o apoio de cerca de 25% a 30% do eleitorado. Na próxima semana, escreverei uma coluna específica sobre o caso brasileiro, para fechar esta série de artigos sobre a América Latina.

Jornalista e escritor angolano,publicado em Portugal pela Caminho

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