Encontros no Marais

Era Paris, e encontrei-o no Marais, perto de sua casa. Senti-o assoberbado com a organização da Europália-91, mas o entusiasmo era, como sempre, transbordante. Havia a extraordinária alegria de viver, de pôr uma máquina em movimento, e de lidar com novas coisas e ideias. Acompanhei-o no sentido do Quartier Latin. Falou-me da equipa, de amigos comuns e da surpresa para muitos da riqueza da moderna cultura portuguesa, a somar ao peso da herança histórica. O tempo era um constante vaivém, em que o presente se enriquecia pela lembrança dos acontecimentos e das pessoas, que inesperadamente surgiam, vindos de diversos horizontes, sem o risco de anacronismo. Numa avidez saudável, ele sabia tudo o que se passava e o que iria passar-se, assinalando religiosamente no Pariscope o que valia a pena ver, ouvir e sentir.

"Os dias do Marais, a casa do Marais, as tardes do Marais - repito estas expressões como quem soletra os títulos de uma história burguesa com famílias numerosas e episódios fabulosos. A razão é simples: apenas atração pelos emblemas da memória. Assim: gostaria de contar estes dias como quem conta uma história antiga (a mesma felicidade das palavras amarelecidas, os mesmos ruídos da madeira, o mesmo sabor dos frutos). Marais: quando as crianças brincam no jardim, quando passam os velhos de barbas hebraicas, é sempre repetição de uma vez anterior, antes de se saber o que havia antes. Dias perfeitos, redondos como pedras, nítidos, coincidentes, plenos, drapejados." A memória era uma natural paixão. A conversa era entrecortada pelo apelo de uma montra, por uma saudação na livraria Cahiers de Colette, na rue Rambuteau, pela súbita invocação de um acontecimento dos últimos dias. A vizinhança era afável e gostava da bonomia dele. Quando passámos o Sena, veio à baila o último livro de Eduardo Lourenço, L'Europe Introuvable. Há sinais de mal-estar e de preocupação. O dia estava cinzento. Havia a obrigação de aproveitar o momento que atravessamos, pois ainda estavam frescos os ecos da queda do Muro de Berlim. Será a Europa cultural uma quimera? Haverá espaço para uma cultura autónoma? Importa não esquecer a consciência dividida, dilacerada, trágica e infeliz? A crise do Golfo de 1991 significava uma derrota para a Europa? Apesar de tudo, a dimensão cultural estava subalternizada e prevalecia o consumismo, faltando a demanda de um sentido...

O europeísmo de Eduardo Lourenço sentia-se traído - e o meu amigo concordava com essa sequência argumentada de razões. Mas a uma "cultura da angústia e da dúvida" não poderíamos contrapor, "em termos muito mais enérgicos e eufóricos", uma cultura da ironia e do jogo", que seria menos trágica, mas trágica "de outra maneira"? No diálogo sobre o sentido - haveria que seguir mais diretamente os critérios imanentes de Deleuze ou a valorização da contingência de Rorty. A conversa continuou viva, sobre revistas: o último número de MicroMega, Paolo Flores d'Arcais e o risco de traição à democracia; o Le Débat e os argumentos de Marcel Gauchet. Sem que quase tivéssemos dado por isso, estávamos em Saint Germain, em frente à livraria La Hune. Era como se entrássemos num bazar de brinquedos, com o cheiro inconfundível do que é novinho em folha. E embrenhámo-nos nas estantes do fundo. Ali estivemos, sem cuidar do tempo (eu teria de regressar à UNESCO), até que, num lampejo de prazer, invocámos a espetacular presença de Fernando Pessoa no Botanique de Bruxelas com a voz de Luís Miguel Cintra, as raridades de Manuel Vilhena de Carvalho descobertas pela Margarida Lages. Tudo foi real, como no documentário de Abílio Leitão - Resistir à Cegueira do Mundo. Fica um abraço ao Eduardo Prado Coelho.

Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

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