Viver e morrer na Síria

Há um vídeo que circula na internet há uma semana e que mostra os efeitos de cinco anos de guerra na cidade síria de Homs, 160 quilómetros a norte de Damasco e a meio caminho entre a capital e o Mediterrâneo. O cenário, filmado a partir de um drone, é devastador. Ao longo dos três minutos e cinquenta e sete segundos desfila uma cidade em ruínas e deserta, de minaretes silenciosos. Passa um único carro, veem-se três rapazes adolescentes que percorrem uma rua e olham para cima, surpreendidos pela câmara voadora. Um deles leva a mão direita à testa em continência. As imagens de destruição são quase familiares. Já as vimos noutras partes do mundo e noutras épocas. Em Cabul nos anos de 1990, em Dresden na Segunda Guerra. A fé, a pátria e a ideologia dos homens podem mudar, mas o inferno da guerra é o mesmo. Homs foi um dos primeiros e principais centros de oposição ao presidente Bashar al-Assad em 2011, depois vieram tanques e mísseis e um longo cerco. Tinha mais de um milhão de habitantes, ruas com árvores, uma universidade, mesquitas e igrejas. Havia quem a considerasse uma cidade exemplo no Médio Oriente no que toca à convivência entre as diferentes fés religiosas. Cinco anos depois, o que sobra de Homs é o resultado de uma das batalhas mais sangrentas do nosso tempo. Certamente deste século. Mais de metade da população morreu ou foi obrigada a fugir desta cidade que desde dezembro voltou a ser controlada pelo exército sírio. O balanço negro dos últimos cinco anos de guerra na Síria foi publicado ontem num relatório de uma organização não governamental: quase meio milhão de mortos, cerca de 1,9 milhões de feridos e um declínio de 15 anos na esperança média de vida que está agora em 55 anos. Estados Unidos, Rússia, Irão, Arábia Saudita e Turquia sentaram-se ontem de novo à mesa das negociações à procura de uma solução para o conflito na Síria. Mas ontem, até ao fim do dia, nem um cessar-fogo parecia possível. Os próximos dias dirão se vem em tempo útil para as dezenas de milhares de sírios que tentam abandonar o país para sobreviver.

Artigo atualizado às 9.30 com informação sobre acordo de cessar-fogo

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