Todos portugueses

Michael Krondl tem ascendência checa, vive em Nova Iorque e é, entre algumas outras coisas, professor e historiador de gastronomia. Há coisa de uma dezena de anos passou por Lisboa em viagem de investigação para o livro que haveria de publicar em 2007 - The Taste of Conquest: The Rise and Fall of the Great Cities of Spice (Ballantine Books), O sabor da conquista: ascensão e queda das grandes cidades das especiarias. Por outras palavras, uma história sobre os anos de ouro de Veneza, Amesterdão e... Lisboa. Por cá, o que lhe interessava era saber o que sobrava ainda na gastronomia portuguesa dos sabores dos Descobrimentos, da canela, da pimenta, do cravinho, da noz-moscada, do açafrão. Deixaria a antiga capital do império português um pouco desapontado com os aromas das Índias e de mais além que conseguiu encontrar - a canela servida com o tradicional pastel de nata soube-lhe a pouco -, mas maravilhado com o que descobriu num canto de Lisboa. Mais do que os cheiros das especiarias, encontrou o mundo das grandes viagens de descobrimento no sopé da colina que sobe até ao castelo. No Martim Moniz. Gente de todas as cores, religiões e proveniências, comerciantes, estudantes, imigrantes. Em nenhum outro lado de Lisboa se descobre esta cidade capaz de receber o mundo. E receber o mundo, ontem as famílias ucranianas, hoje os sírios, compensa sempre. Enriquece. A história de Lorène Bazolo, que hoje se conta no DN, é o exemplo mais recente disso. Perseguida no Congo apenas por ter nascido numa tribo diferente, em 2013 encontrou refúgio em Portugal. Com nacionalidade portuguesa desde maio deste ano, acabou de bater o recorde nacional dos 100 metros em atletismo, marca imbatível desde 1997, e vai representar o seu novo país nos Jogos Olímpicos do Rio. O caminho de séculos percorrido até aqui, que nos trouxe uma campeã e outros mundos, está longe de ter sido de brandos costumes. Lorène nasceu no Congo, o reino que durante séculos alimentou o comércio português de escravos. A História também tem destas ironias. Neste caso, pelo menos, tudo aponta para um final feliz.

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