Tentação fatal

Acabam a licenciatura, enviam centenas de CV, vão a entrevistas, levam com umas dezenas de portas no nariz, desesperam, voltam a insistir, até que chega um dia e conseguem finalmente o tão desejado primeiro emprego. O mais provável é que não seja exatamente o que esperavam, mas é o primeiro passo para começarem a pensar em deixar a casa dos pais, fazer a mala e rumar à independência. Googlam a pente fino, ligam para as imobiliárias, passam palavra entre conhecidos. Procuram casa e talvez até estejam dispostos a divida-la e às despesas com mais um, ou dois, ou três amigos, ou amigos de amigos. Não estão à espera de encontrar a casa dos sonhos, mas seria bom encontrar uns metros quadrados acessíveis no centro da cidade - "dentro de Lisboa" e com transportes públicos à mão de semear, como há dois dias explicou ao DN Ana Lima, 25 anos, em busca de apartamento há oito meses. O problema é que os limites do centro de Lisboa alargaram nos tempos mais recentes à velocidade da subida de preços por metro quadrado e do aumento do número de hotéis, hostels e alojamentos locais que os recordes do turismo têm feito explodir como pipocas. Casas com rendas mais acessíveis estão cada vez mais longe dos bairros históricos ou tradicionais de Lisboa - lá mais para Benfica, Lumiar, Penha de França, com sorte, talvez em Telheiras. Um caso exemplar é Alfama. As casas degradadas, pequenas, sem elevador e a precisar de obras de há alguns anos, preferidas por uma faixa etária mais jovem para servirem de primeira morada, passaram à história. Há ruas inteiras transformadas em hotel, moradores que aproveitam a grande procura para vender a casa a bom preço, outros que saem para arrendar as quatro paredes a turistas. A tentação é irresistível e os efeitos já são visíveis - são cada vez menos os lisboetas que moram nos bairros históricos da cidade. E jovens nem vê-los. Resta saber como vai Fernando Medina conseguir cumprir o projeto de rendas controladas que anunciou recentemente, mas sem mais explicações, destinado a fixar a população mais jovem em Lisboa. E, já agora, a menos nova também.

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