O homem da camisola amarela

"Quando um dia o ator Genscher fechar os olhos, haverá tanta coisa feita, que se poderá escrever interminavelmente sobre o assunto." A frase é de Hans-Dietrich Genscher e é com ela que o liberal alemão termina a entrevista que deu há dois anos à revista do jornal alemão Die Zeit. O ex-governante alemão fechou os olhos na noite desta quinta-feira, em casa, vítima de paragem cardíaca. Morreu aos 89 anos e foi um dos políticos alemães mais influentes da segunda metade do século 20, sem dúvida um dos mais influentes na Europa e nas manobras de desanuviamento das relações entre as duas frentes da Guerra Fria: os Estados Unidos e a União Soviética. Genscher trabalhou com três chanceleres alemães entre 1969 e 1992. Foi ministro do Interior de Willy Brandt, ministro dos Negócios Estrangeiros e vice-chanceler de Helmut Schmidt e de Helmut Kohl. Foi um dos maiores defensores da integração europeia, um dos principais construtores da reunificação alemã e o maior defensor da chamada Ostpolitik, ou genscherismo, como lhe passaram a chamar, a política de conciliação com os países do bloco de Leste, em contraste com a anterior, que proibia as relações diplomáticas com quem quer que reconhecesse a República Democrática Alemã. De acordo com uma biografia publicada há cinco anos, do diplomata alemão Hans-Dieter Heumann, o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros alemão tinha ainda uma grande habilidade: sabia apagar fogos como ninguém - era capaz de apaziguar as más disposições de Jimmy Carter, que se irritava com a imprevisibilidade de Helmut Schmidt, ou de Gorbachev, que se queixava do espírito de vingança de Kohl, ou de Mitterrand, que não gostava do carácter de Schmidt e que mais tarde também embirrou com as "táticas eleitoralistas" de Kohl. Genscher relativizava, apaziguava, contava anedotas e restabelecia invariavelmente a paz com a Casa Branca, o Eliseu e o Kremlin. Os alemães conheciam--no pela camisola amarela de gola em bico que ele gostava de usar - a mesma camisola que foi leiloada em 1999 por mais de sete mil euros, doados à Fundação Alemã do Coração. Mas, nas salas do poder do mundo, ele era um homem em quem se podia confiar. A sua receita parecia simples: "Trata-se de vermos as coisas da perspetiva do outro, de saber conquistá-lo, mas sem o derrotar."

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