No fio da navalha

A troika chegou a Portugal na semana passada para a terceira missão de avaliação em pleno período de elaboração do primeiro Orçamento do Estado do governo de António Costa. Tal como a Comissão Europeia, também os representantes dos credores não ficaram tranquilos com o esboço do plano para as contas públicas para 2016. A reversão já anunciada e com data de entrada em vigor marcada de uma série de medidas - aceleração da reposição de salários na função pública, redução do horário de trabalho para as 35 horas, aumento do salário mínimo, fim mais acelerado da sobretaxa do IRS, reposição dos feriados, reversão das concessões a privados de transportes públicos, entre outras - constituem um retrocesso, diz a troika, para a disciplina orçamental tão desejada, mas também um risco para o cumprimento das obrigações financeiras do país. Se Portugal não estivesse endividado até ao pescoço, o cenário até podia ser diferente. O problema é que a dívida não é apenas alucinante, como os vários prazos para a pagar começam também agora a ser galopantes - 43,1 mil milhões de euros no total dos próximos quatro anos e sempre a aumentar de ano para ano, começando em 6,4 mil milhões em 2016 e terminando em 15,6 mil milhões em 2019 (e serão ainda precisos mais de 20 anos para o país conseguir pagar aos credores que financiaram a saída da pré-bancarrota).

Duvidando igualmente da bondade do plano orçamental do governo, a Comissão Europeia enviou uma equipa de técnicos a Lisboa na semana passada e os últimos dias têm sido de intensas negociações entre estes e os homens do Ministério das Finanças. A dois dias de fechar um acordo - preferencialmente na quarta-feira, para que o Orçamento possa ser aprovado em Conselho de Ministros no dia seguinte e entregue no Parlamento na sexta-feira -, as posições do primeiro-ministro português e da Comissão não parecem estar mais próximas. António Costa chegará certamente a um acordo com Bruxelas. Até com o Bloco e com o PCP. Mas o país vai continuar a viver no fio da navalha.

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