Ideia brilhante

Era um dos programas familiares mais aguardados do verão. Começavam as férias e antes da partida para algures à beira-mar havia um programa que não falhava em noite de calor: ir jantar à Feira Popular. Os adultos atiravam-se às sardinhas assadas regadas a sangria, as crianças lambiam-se à vista das batatas fritas com frango no churrasco e a mousse de chocolate obrigatória que se seguia. Um passeio no comboio fantasma, uma volta nos carrinhos de choque e uma passagem pelo poço da morte depois, regressavam todos a casa com a sensação de missão cumprida. Num tempo em que era preciso ir a Badajoz para provar uma verdadeira Coca-Cola, a Feira Popular de Lisboa ainda era uma atração. As últimas décadas de vida foram de decadência acelerada. A velha Feira Popular que fechou as portas definitivamente há 12 anos, e sem fazer as contas ao custo de cinco hectares vazios numa das zonas mais privilegiadas da cidade, já custou entretanto mais de cem milhões de euros a Lisboa, valor que em 2014 pôs um ponto final num processo judicial entre a câmara (presidida então por António Costa) e a Bragaparques, envolvendo os terrenos da Feira Popular e do Parque Mayer. Doze anos depois, a primeira tentativa de venda dos terrenos da Avenida da República, em outubro, ficou às moscas, estando agora a decorrer a segunda, até 3 de dezembro, e esperando a autarquia que apareçam investidores disponíveis para pagar, pelo menos, 135,7 milhões de euros por aquela área de construção de 143 mil metros quadrados. Em Carnide, a norte, deverá nascer a nova Feira Popular de Lisboa, anunciou ontem Fernando Medina, o presidente da câmara, num parque urbano de 20 hectares, parte dos quais - mas não todos ainda - nas mãos da autarquia, num investimento que soma, à data, 11,5 milhões de euros. As imagens produzidas para a ocasião são bonitas: muito verde, alguns equipamentos de diversão mas não muitos e luzes coloridas. Uma espécie de Disney. As acessibilidades, com metro, linhas de autocarro e vias rápidas à porta, parecem uma maravilha. Quando é que se prevê que abra as portas? Não se sabe, mas sabe-se que é projeto para desenvolver ao longo de muitos anos, diz o autarca. Quem vai pagar? Como? Qual é o modelo de negócio? É querer saber de mais. Que tipo de parque de diversões? A resposta elucida: o projeto resulta do estudo "daquilo que de melhor se faz por essa Europa fora". Qualquer pessoa tem de ficar descansada. Para rematar, a câmara promete lançar uma campanha pública, dentro de algumas semanas, para recolher ideias. Que ideia brilhante. Lisboa precisa mesmo disto?

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