Guerra e paz

No dia 22 de setembro de 1984, Frédéric de La Mure, fotógrafo oficial do Quai d'Orsay, o Ministério dos Negócios Estrangeiros francês, tirou uma fotografia que ficou para a história da Europa: François Mitterrand, presidente da França, e Helmut Kohl, chanceler da Alemanha, de mãos dadas em Verdun, durante uma cerimónia em memória dos mais de 700 mil soldados franceses e alemães mortos numa das batalhas mais longas da primeira Grande Guerra. Provavelmente, a batalha mais devastadora de sempre. A imagem de La Mure correu as primeiras páginas dos jornais da época e tornou-se símbolo da reconciliação franco-alemã - 70 anos depois da primeira Guerra Mundial, 39 anos depois da segunda. Não se adivinhava ainda, mas esta reconciliação abriria também caminho a uma reunificação alemã sem sobressaltos para o chamado eixo euro-atlântico seis anos mais tarde. Não apenas sem sobressaltos como reforçando as relações com os EUA de Bush e a França de Mitterrand no novo cenário de um mundo pós-Guerra Fria.

Duas décadas e meia depois da queda do Muro de Berlim e duas semanas depois de os britânicos votarem pela saída da União Europeia, França e Alemanha voltam a ser os dois pesos do equilíbrio europeu e a imagem das boas relações franco-alemãs bem pode ser esta, que o DN publica hoje: o momento em que François Hollande recebeu ontem Angela Merkel no Palácio do Eliseu, para uma cimeira sobre os Balcãs Ocidentais. Sérvia, Bósnia e Herzegovina, Kosovo, Montenegro, Macedónia e Albânia querem entrar na União Europeia e a União Europeia quer reforçar a segurança - e assegurar a paz - a leste. A economia tem dominado as últimas décadas europeias num looping de crescimento seguido de crises - menos crescimento e mais crises nestes anos mais recentes - e estas são chão de más sementeiras como a história ensina. Os sinais de desagregação e de extremismo andam por essa Europa fora alimentados pelo medo do terrorismo e pela xenofobia contra os imigrantes. A lua-de-mel entre Hollande e Merkel não ficará para a história, mas, por muito ridícula que nos pareça a imagem aqui em cima, ela não deixa de ser um bom sinal. Um e outro têm obrigação de saber que a paz não tem preço.

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