Efeitos secundários

A sentença chega do outro lado da mesa, sempre inesperada, dando cabo do sopro de esperança que ainda conseguia sobreviver. O médico é cuidadoso a dar a notícia, mas por mais cuidado que tenha, do outro lado ela chega com a força de um murro. O tumor é maligno. Cancro, quer ele dizer sem usar a palavra. Fala sem pausas, utilizando linguagem técnica em que sobressai o tratamento, a cirurgia, mais tratamento, boas probabilidades de cura até. Mas sabemos que o cancro é a segunda causa de morte em Portugal. Que a cada ano afeta mais 14 milhões de pessoas em todo o mundo, número que, segundo a Organização Mundial de Saúde, deverá chegar a 22 milhões de novos doentes por ano nas próximas duas décadas. A ciência deu grandes saltos na direção certa quanto à prevenção e tratamento desta doença, mas a palavra tornou-se irremediavelmente sinónimo de uma corrida contra o tempo pela vida. Talvez por isso, estranhamente ou não, apareça agora associado um efeito secundário: o do sobrediagnóstico e sobretratamento em alguns cancros, como refere o investigador Manuel Sobrinho Simões, sobretudo nas patologias mais frequentes. "Tratamos por excesso", diz. Em alguns casos, não seria necessário submeter o doente a cirurgia, por exemplo. São excessos que andam de mão dada com os avanços da tecnologia. Mais e melhores equipamentos e ferramentas de diagnóstico capazes de detetar pequenas lesões, de acordo com os investigadores, abriram a porta ao sobrediagnóstico e espaço ao mais vale prevenir do que remediar. Infelizmente, em alguns casos com custos maiores para o doente, mas o problema é que em muitos desses casos também não é possível dizer se a melhor decisão podia ter sido outra. Por enquanto, pelo menos. Até lá, o melhor mesmo é apostar na prevenção: "Não fumar, não engordar e fazer exercício físico é bom para todas as doenças", como diz Manuel Sobrinho Simões. Parece uma receita de lugares-comuns de tão repetida, mas aqui é que mais vale prevenir do que remediar.

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