A ideologia do pragmatismo

Ontem, num discurso de despedida perante o Conselho da Diáspora, Cavaco Silva fez a apologia do pragmatismo em detrimento das ideologias. Considerou o Presidente da República, à boleia do que se passou na Grécia, que "a realidade acaba sempre por derrotar a ideologia". E acrescentou que "a governação ideológica pode durar algum tempo mas faz estragos na economia e deixa faturas por pagar". De imediato os especialistas na hermenêutica cavaquista identificaram recados nas entrelinhas para o governo do PS apoiado pelo PCP e pelo Bloco de Esquerda. Na verdade, o discurso de Cavaco, tal como algumas das interpretações feitas logo de seguida, pode ter sido mais um ato falhado do Presidente da República que mais se destacou no amparo a um governo. Desde logo porque o diagnóstico feito por Cavaco assenta como um fato do melhor corte à governação PSD-CDS. Pedro Passos Coelho foi, porventura, o primeiro-ministro mais ideológico do pós-25 de Abril. E, como bem afirmou Cavaco Silva, as suas opções políticas fizeram estragos na economia - desemprego recorde, emigração à tripa-forra, investimentos congelados, dívida pública acima das nossas possibilidades - e deixaram faturas por pagar; o Banif é só o derradeiro exemplo. É aliás por má consciência e não por qualquer imperativo de interesse nacional que hoje o PSD dará a mão a António Costa, viabilizando o seu primeiro Orçamento, na verdade, o último de Passos Coelho. O próprio, resignado, dizia ontem que a solução encontrada para um problema que tem anos - pelo menos tantos quantos a anterior maioria e que só não foi resolvido por mero pragmatismo eleitoral - foi a melhor, e que ele próprio não teria feito diferente. Diz mesmo que não quer arremessos por causa do Banif. A razão é simples: Passos sabe que nós sabemos que ele, enquanto primeiro-ministro, preferiu sempre esconder-se atrás de biombos para não assumir as suas incompetências - Maria Luís Albuquerque e o incompreensivelmente reconduzido governador do Banco de Portugal foram os mais recentes - e que um chumbo do Retificativo que hoje vai ao Parlamento se viraria contra si próprio. Lá está, é o pragmatismo que o faz salvar António Costa quando as esquerdas, coerentes, lhe negam o apoio. Mas, ao contrário do que sugere Cavaco Silva, o pragmatismo não é remédio mas veneno. Foi em nome dele que aqui chegámos convencidos pelos pragmáticos de que não havia alternativa. E em democracia há sempre. E essa, a alternativa, é-nos oferecida pelas ideologias. Recusá-las é o mesmo que aceitar o pensamento único tão próprio das ditaduras.

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