Editoriais

Susana Amador

O poder local e o combate à violência contra as mulheres

A violência contra as mulheres é um dos maiores obstáculos à corporização da igualdade e uma fragilização da democracia. A visibilidade que o tema tem vindo a adquirir, associada à redefinição dos papéis de género e a uma nova consciência de cidadania, obrigou os poderes públicos a quebrar o silêncio e a adotar políticas de prevenção e combate ao flagelo, mas que por diversos motivos não têm produzido os resultados efetivos a que aspiramos.

Susana Amador
Jorge Moreira da Silva

A falta de norte na pandemia do sul

Na mesma altura que novos dados apontam para a entrada de vários países, incluindo Portugal, na 5ª vaga da pandemia, assim como para o surgimento de uma nova variante - Ómicron -, também surgiram novos dados que evidenciam o surgimento de uma nova vaga de desigualdades entre países. Recorde-se que os países em vias de desenvolvimento já tinham sido vítimas de uma injustiça relativa quando, no início de 2020, tiveram de enfrentar a pandemia em condições de enorme vulnerabilidade nos serviços de saúde - ao nível das unidades de cuidados intensivos, dos ventiladores, dos testes e dos tratamentos - e sem real possibilidade de adotar soluções de confinamento e de distanciamento social. Depois enfrentaram os efeitos desproporcionais da pandemia nos planos social e económico: mais de 100 milhões de pessoas foram atiradas para a situação de pobreza extrema e os fluxos externos privados de financiamento ao desenvolvimento caíram mais de 200 mil milhões de dólares. Paradoxalmente, os mesmos países ricos que foram capazes de, em poucos meses, mobilizar 16 biliões de dólares de pacotes de apoio aos cidadãos e empresas nacionais, não foram capazes de ir além de um aumento de 8000 milhões de dólares na ajuda pública aos países mais pobres, nem de avançar para programas de perdão de dívida.

Jorge Moreira da Silva
João Almeida Moreira

A noivinha do Aristides

Quem se lembra do "senhor do adeus", figura lisboeta que, para matar o tédio, acenava aos automóveis no meio da rua em troca de saudações? Pois o Brasil também já tem um "senhor do adeus". Chama-se Jair e, como está entediado por que o país a que preside não tem nenhum problema económico ou sanitário grave, decidiu passar a manhã de segunda-feira à beira da Via Dutra, a autoestrada que liga o Rio de Janeiro a São Paulo, a dizer adeus aos carros.

João Almeida Moreira
Joana Petiz

É urgente promover a natalidade  

Instabilidade laboral e desemprego, salários baixos e rendimentos insuficientes para sustentar uma casa e uma família, dificuldade em encontrar e manter relações estáveis são alguns motivos que têm contribuído para atrasar a saída dos jovens da casa dos pais. E também de constituir família, como vem ficando cada vez mais claro, com os lares portugueses a contar já com uma média inferior a um bebé por família. E o cenário está a piorar.

Joana Petiz
Maria da Graça Carvalho

Um programa para melhorar Portugal

As diretas do PSD já passaram e, como disse o presidente do partido após ver confirmada a sua eleição, este capítulo ficou encerrado. Trata-se agora de enfrentar, com confiança, o desafio das eleições legislativas de 30 de janeiro. Sobre a votação do passado fim de semana direi apenas que Rui Rio conseguiu uma clara vitória, em circunstâncias difíceis, confirmando-se como um líder que inspira confiança na maioria dos militantes do partido, mas também que Paulo Rangel demonstrou, pelo resultado alcançado, que é um ativo muito importante do PSD.

Maria da Graça Carvalho
Jorge Costa Oliveira

Vistos dourados, captação de investimento e vontade política

Por ocasião do 9.º aniversário do regime da Autorização de Residência para Investimento (ARI), mais conhecido por "vistos dourados", foram publicitados alguns dados estatísticos. Foram captados, no total, mais de 6000 milhões de euros de investimento estrangeiro que levaram à atribuição de 10.087 ARI - 5776 milhões (9450 ARI) através da compra de bens imóveis, dos quais 342 milhões (950 ARI) para reabilitação urbana, 576 milhões (617 ARI) resultantes da transferência de capitais e 20 ARI por criação de postos de trabalho.

Jorge Costa Oliveira
Guilherme de Oliveira Martins

Lembrança das margens do Arno

Na última crónica, recordámos a mãe de António Osório, com especial ternura, a ler a seu filho Dante em cadência florentina, lembrando as margens do Arno: "Quinci compreender puoi ch"esser convene / amor sementa in voi d"ogne virtute / e d"ogne operazion che merta pene" ("Assim compreenderás que ser convém / o amor semente em vós só de virtude / e da operação que pena tem." - Purgatório, Canto XVII). Ora, a celebração do sétimo centenário da morte de Dante Alighieri tem permitido uma reflexão de grande interesse sobre as bases da cultura europeia, abrangendo referências clássicas e modernas. A publicação da nova tradução da Divina Comédia, da autoria de Jorge Vaz de Carvalho (INCM, 2021), tem permitido uma releitura séria e exigente da obra-prima, sem esquecer o pioneirismo e o sentido poético de Vasco Graça Moura, que não devem ser esquecidos. Depois da extraordinária Conferência do Cardeal José Tolentino Mendonça, Alberto Manguel tem-nos ajudado nesse encontro sublime, do mesmo modo que os participantes nas iniciativas em torno das "Visões de Dante. O Inferno segundo Botticelli", como Teresa Bartolomei e João R. Figueiredo, graças à presença na Fundação Gulbenkian de dois excecionais desenhos do genial artista, pertencentes à Biblioteca Apostólica Vaticana.

Guilherme d'Oliveira Martins
João Melo

Racismo sanitário

Assim mesmo, sem aspas: racismo sanitário. Se dúvidas houvera, a decisão do alegado "mundo desenvolvido" perante a descoberta, na África do Sul, de uma nova variante do vírus da covid-19 - a omicron - confirma de uma vez por todas que a Europa e os EUA mantêm a sua atitude colonial em relação aos povos africanos e às nações pobres em geral. O racismo anti-negro continua, mais de cinco séculos depois, a ser o principal obstáculo à edificação de uma autêntica "humanidade compartilhada" entre todos os homens e mulheres do planeta. Tal política, recorde-se, é uma das estruturas do sistema capitalista de desenvolvimento, desde o surgimento deste último.

João Melo
Joana Petiz

Seguir os bons exemplos

Ao abrigo de acordos bilaterais ou no âmbito de missões internacionais da NATO, da ONU, da União Europeia, só neste ano as forças armadas portuguesas enviaram perto de 2 mil militares para lá das nossas fronteiras em duas dezenas de missões, muitas delas para zonas de alto risco, como é o caso no norte de Moçambique, tomado por radicais islâmicos, ou da República Centro-Africana, uma das zonas mais perigosas e instáveis do globo. Como já foi o caso do Afeganistão ou do Kosovo ou do Mali ou da Somália, entre muitos outros destinos onde as nossas tropas já ajudaram a salvar milhares de vidas, a acabar com regimes opressores, a resolver conflitos graves, a aplacar atos de extrema violência, a pôr fim a ondas de terrorismo, a ensinar tropas locais a agir contra movimentos radicais, a garantir a prevalência dos Direitos Humanos onde quer que eles estejam sob ataque.

Joana Petiz
Thierry Burkhard

Para uma solidariedade estratégica europeia

Há já alguns anos que vivemos uma deterioração do contexto securitário internacional, num mundo cada vez mais duro, com o multilateralismo e o direito postos em causa. Grandes competidores, assim como certas potências regionais emergentes, não hesitam, com a finalidade de afirmarem as suas pretensões, em recorrer à utilização de capacidades militares, frequentemente de forma agressiva, por vezes logo abaixo do limiar do conflito armado. Este endurecimento, que gere atritos óbvios e inclui um risco real de escalada, põe em causa os grandes princípios que regem as relações internacionais e a liberdade de ação dos nossos países.

Thierry Burkhard
Vasco Ferraz

Da dignidade da política

Na Grécia Antiga, a Política era entendida como a atividade nobre por excelência, no sentido em que compreendia as ações tendentes à concretização da melhor vida na Polis, na cidade. Apesar de então a "democracia" ser bastante imperfeita, por a participação na vida da cidade se encontrar restringida a uns poucos homens que formavam as elites locais, havia a noção de que os cidadãos envolvidos no processo de decisão política eram seres humanos dominados por uma grande dose de altruísmo, de dignidade, de probidade, dado que, no estrito cumprimento da Lei, só atendiam ao bem público, que prevalecia sobre os interesses particulares.

Vasco Ferraz
José Aranda da Silva

Os desafios das tecnologias: medicamentos e dispositivos médicos

Diversidade e Evolução São diversas as Tecnologias de Saúde. As mais referidas são os medicamentos e os dispositivos médicos, onde estão incluídos desde uma máscara ou luvas cirúrgicas, o bisturi, até aos grandes equipamentos de imagiologia como os Raios-X a tomografia computorizada (TAC), ressonância magnética nuclear (RMN)) e os sofisticados aparelhos que executam múltiplas análises clínicas simultaneamente. Uma das características que as distingue de outras áreas é que, em grande parte no momento da inovação, não se efetua a substituição da antiga tecnologia que, em muitas circunstâncias, continua a ser utilizada e com utilidade. O Rx continua a ser utilizado como primeira linha, não sendo substituído por outras tecnologias mais modernas como a TAC. Medicamentos com mais de 30 anos continuam a ser utilizados na maioria da população com efetividade, mesmo havendo outros mais modernos e inovadores nalguns aspetos.

José Aranda da Silva
Paulo Baldaia

"Os jornalistas não fazem parte do poder"

Rui Rio vai continuar a andar por aí e ele cultiva más relações com os jornalistas com o mesmo ritmo frenético com que o faz em relação a alguns companheiros do partido. Isso responsabiliza-o a ele, não serve para desculpar quem lhe responde na mesma moeda. No Expresso online, Daniel Oliveira escreveu a semana passada que "Rio teve de lidar com uma descarada oposição da comunicação social". Apontou a Rio "muitas culpas no cartório", mas concluiu lembrando que "o papel do jornalismo não é castigar quem o desrespeita". Tenho de concordar inteiramente com ele.

Paulo Baldaia
Sebastião Bugalho

De derrota em derrota até à vitória final?

Poucas coisas são tão irresistíveis quanto a política e a sua imprevisibilidade. A sua capacidade de surpresa. A sua vertigem, semelhante ao carro que mergulha num viaduto mal desenhado ou ao espreitar uma ravina de altura desconhecida. Na nossa política, o PSD é por certo o precipício mais íngreme, a rampa mais escorregadia, a contracurva capaz de maiores reviravoltas. Ninguém diria que Rui Rio, abandonado por Cavaco, Balsemão, Morais Sarmento, Moedas e uma mão cheia de caciques, sobreviveria à contestação de Paulo Rangel. Mas foi assim. Sem nenhuma vitória eleitoral para mostrar em quatro anos, sem uma única sondagem nacional acima dos 30% desde que é líder, com um Conselho Nacional crescentemente hostil e pouco mais do que a distrital de Aveiro e um município recém-recuperado pelos sociais-democratas atrás de si, Rio venceu a disputa interna deste fim-de-semana.

Sebastião Bugalho