É urgente voltarmos a sonhar. O orçamento de Biden ajuda*

*Proposta para o programa científico e espacial é das maiores dos últimos anos. Está mais do que na altura de voltarmos a olhar para os EUA como figura de proa na investigação e bastião da liberdade e deixarmo-nos de encantamentos estapafúrdios com tiranetes "esclarecidos".

Há um momento delicioso em Casino Royale, o filme de estreia de Daniel Craig como James Bond.

Quando M, a chefe dos serviços secretos MI6, papel interpretado por Judy Dench, descobre que o seu recém-promovido 007 entrou numa embaixada só para matar um "simples bombista", comenta com os seus botões: "Noutros tempos, quem fizesse uma coisa dessas tinha depois o bom senso de desertar."

E conclui: "Cristo, que saudades tenho da Guerra Fria!"

Confesso que me revejo nesta conclusão variadíssimas vezes. Pelo menos nesse tempo as coisas estavam bem definidas. Era "o lado de cá" e "o lado de lá".

Para mim, as coisas sempre foram muito claras. "Nós" -- os que não tínhamos muros a impedir os seus cidadãos de irem além-fronteiras, nem proibíamos as pessoas de dizer ou escrever o que muito bem entendessem, nem tínhamos "jornais oficiais" de um partido, organizávamos eleições livres, podíamos trocar de emprego, abrir empresas, comprar roupa e sapatos e carros e outras coisas... -- éramos os "bons"; "eles" eram os "maus". Pela simples razão de que eram exatamente o oposto do que nós éramos.

O Ocidente é livre. O Leste não era. E ainda não é (já cá voltamos).

Nunca percebi (nem hoje percebo) qual é a dúvida. Como é possível haver sombra de dúvida? Independentemente de todos os problemas do lado de cá -- e tantos que são! -- é tão absolutamente evidente que lá é pior.

Aqui, no Ocidente, pelo menos, podemos sonhar.

Mas com o volver dos anos as coisas modificaram-se, de facto. Passada a "boa loucura" dos anos 80 -- que levaria a União Soviética à falência final, incapaz de competir --, tudo deixou de fazer tanto sentido. Dos dois lados.

Mesmo os americanos, como se de repente tivessem deixado de ter uma potência com a qual se comparassem, pareciam ter perdido o permanente olhar fixo no horizonte que faz parte do American Dream.

É verdade que veio a revolução digital, primeiro com a internet, depois as .com e agora a net móvel e o 5G, mas não é bem a mesma coisa.

Onde está o espírito de inspiração que se lembrou, nos anos 70, de gravar um disco de ouro com todas as "vozes do mundo" e enviá-las para o espaço sideral nas sondas Voyager 1 e 2, para que daqui a milhões de anos, mesmo depois de já não existirmos, haja um registo nosso algures no cosmos?

Foi substituído pelo exercício de marketing egoístico de Elon Musk de meter o seu Tesla Roadster no espaço, com um manequim lá dentro? É isso?

E para que calendas ficou a ideia de fazer voos orbitais regulares e seguros, o que eventualmente levaria ao desenvolvimento e construção do vaivém espacial Columbia e restante frota?

Hoje até temos de voltar a repensar em voos supersónicos transatlânticos, como se o Concorde nunca tivesse existido (e mesmo assim a velocidades inferiores à obra-prima da British Airways/AIr France).

A desinspiração ocidental, por mais lamentável que seja, é apesar de tudo menos grave do que o aparente fascínio de alguns setores ocidentais pelos regimes totalitários do mundo, independentemente dos resultados económicos imediatos de parte deles.

Havia uma coisa que o velho partido Republicano (o pré-Trump) se arrogava na Guerra Fria, com razão: a superioridade moral dos EUA perante a URSS, que usou a força sobre os seus cidadãos e os países limítrofes durante 70 anos para segurar um regime podre desde o primeiro minuto.

Hoje, noticiamos calmamente que a China "permite aos seus cidadãos ter três filhos" e consideramos normal: é só mais uma coisa lá deles, com o Estado continuando a interferir na esfera privada das pessoas. Assistimos mais uma vez à repressão sobre quem tentou assinalar o aniversário das manifestações em Tiananmen e mal batemos uma pestana.

Na Rússia, Putin prepara-se para ficar no poder tanto tempo quanto quiser -- acaba de promulgar uma lei que lhe permite ilegalizar qualquer partido que considere "oposição ilegal", segundo a AFP -- e as coisas vão andando. A pequena crise entre a UE e a Bielorrússia por causa de um jornalista é apenas mais um exemplo de como as sanções ocidentais são absolutamente irrelevantes perante a arrogância de quem não faz a mínima ideia do que significa a liberdade. Exceto a sua.

Contas feitas, é este o grande legado da revolução comunista do séc. XX.

Mas a administração Biden parece querer repor a América no lugar de onde nunca deveria ter saído. O Presidente americano endureceu o discurso e bem. E pediu dinheiro. Muito dinheiro, também, para a NASA e a ciência.

A dotação para a agência espacial norte-americana que a atual administração pediu é a segunda melhor proposta de orçamento em 25 anos: 24,8 mil milhões de dólares -- 6,6% mais do que no ano passado.

Isto servirá para pagar, em parte, o desenvolvimento do programa Artemis, que voltará a colocar pessoas na Lua, havendo já projeto para duas missões não tripuladas a Vénus.

Também há vários projetos de monitorização climática e outros, sendo que 7,9 mil milhões do orçamento proposto vão para a divisão de ciência da NASA.

E só com ciência -- e uma América forte -- é possível sonhar ir mais longe. Em liberdade.

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