É possível sobreviver à infidelidade?

A infidelidade no contexto de uma relação amorosa ativa questões relacionadas com o amor e o abandono. Os piores medos são despertados e a confiança quebra de forma imediata. Será possível sobreviver a uma traição?

Contrariamente ao que se pensa, raramente a traição se resume ao sexo. E também não se resume a gostar, ou não, do parceiro. Mais frequentemente, surge como uma forma de a pessoa se sentir viva face ao sofrimento ou desencanto que sente na relação que tem ou, ainda, fruto da dificuldade em lidar com alguma situação geradora de stress que esteja a vivenciar.

A traição pode ter motivações muito diversas. Pode ser uma forma de evitar o conflito ou maior intimidade emocional. Noutras pessoas, pode relacionar-se com uma dependência sexual. Por vezes, a pessoa que trai sente-se dividida e cansada de lutar pela sua relação e, neste caso, os affairs tendem a ser mais duradouros e apaixonados.

Outras situações são os chamados "affairs terminais", uma forma de terminar a relação, um escape, uma tentativa de evitar confrontar-se com as dificuldades da relação.

Dependendo da motivação da traição, assim quem trai irá desenvolver mais ou menos esforços para manter o segredo. Nos affairs terminais o traidor deixa pistas "de forma acidental" e é descoberto mais cedo. Quando as motivações se relacionam com a ambivalência face ao futuro da relação, é mais provável que se encetem esforços para manter o segredo durante mais tempo. Teme-se o conflito e as consequências da revelação.

A pessoa que é traída pode reagir de formas muito diversas. Muitas preferem não saber, adotando a negação como mecanismo de defesa. Porque se souberem, e assumirem que sabem, ver-se-ão obrigadas a fazer algo. Por motivos diversos, escolhem não o fazer, "fecham os olhos" e tentam ignorar os sinais, por mais explícitos que sejam, numa clara reação de evitamento. Outras pessoas entendem que a separação é o único caminho possível, feridas no seu narcisismo e acreditando que a confiança jamais será recuperada. Algumas querem lutar pela relação, vendo o affair como uma oportunidade de melhorar a sua relação de casal.

Sim, é possível sobreviver a uma infidelidade e reparar a relação.

A revelação ou descoberta de uma traição é uma situação de crise indutora de elevado stress e o futuro da relação depende da forma como o casal lida com esta crise.

É possível voltar a confiar, é certo, mas não é fácil nem rápido. É necessário tempo, envolvimento ativo e esforço de ambos os parceiros. É ainda muito importante que os parceiros ativem a sua rede de apoio social e controlem a obsessão pela terceira pessoa e pelo desejo de vingança. Ao mesmo tempo, que consigam focar-se no "EU emocional", permitindo-se fazer o luto das perdas.
A perda de confiança, de segurança e de pertença.

Mas fazer o luto das perdas não equivale, necessariamente, a separação ou divórcio.

Como nos diz a terapeuta Esther Perel, "a traição corta até ao osso, mas a ferida pode ser curada".

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

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