É hora de ir embora, amigo

No dia 23 de agosto de 2016, o Francisco Rodrigues dos Santos deu a sua primeira entrevista. Por coincidência, foi também a primeira vez que entrevistei um político. Simpatizámos. Como qualquer pessoa que o conheça sabe, é um indivíduo socialmente encantador. No dia 23 de janeiro de 2019, três anos mais tarde, a Assunção Cristas convidou-me para beber café. Direta ao assunto, sentou-se e disse-me que queria que fosse deputado do CDS. Com a jovialidade de um miúdo de 23 anos, respondi-lhe: "Tava a ver que não convidava." Ela riu-se e passámos a tratarmo-nos por tu. No dia 22 de maio, no último comício das eleições europeias, fora já anunciado como candidato independente e a Juventude Popular, presidida por Rodrigues dos Santos, viera já manifestar-se contra o meu nome. À saída do evento, Paulo Portas viu-nos e brincou: "Vá, vão lá fazer as pazes."

Não fizemos, claro, porque nunca nos havíamos chateado. Era só política. E a política é a busca constante da nobreza na dissimulação.

No dia 6 de outubro de 2019, o CDS teve 4,2% em legislativas. Lembro-me do Diogo Feio, que faz anos nesse dia, sentado no chão com as pernas à chinês, lendo resultados do telemóvel. Rodrigues dos Santos não foi eleito, eu não fui eleito e Cristas, num momento exemplar de dignidade e humildade democrática, abandonou a liderança do partido. A seu tempo, a história fará justiça à mulher que assegurou o equilíbrio constitucional de haver oposição nos quatro anos de geringonça. À saída da sede, disse-lhe: "Ainda vamos ter saudades destes 4,2%."

No dia 26 de janeiro de 2020, fez agora um ano, o Francisco era eleito presidente do CDS. De lá para cá, a sua liderança falhou. As bandeiras conservadoras que anunciou prosseguem enterradas. Os novos quadros que promoveu permanecem anónimos. Dos seus sete vice-presidentes, os portugueses conhecem um. Mal ou bem, Cristas rodeou-se de uma direção cujo equilíbrio e notoriedade (Melo, Meireles, Mesquita) esta não tem, nem conseguiu. O partido, com Rodrigues dos Santos, tornou-se uma unipessoal focada na comunicação. Oferecer-se como voluntário às Forças Armadas, utilizando-as como veículo de promoção mediática, foi um embaraçoso exemplo disso.

Politicamente, a gestão foi igualmente lastimável. O CDS de Chicão começou por salvar um Orçamento do PS, votando a seu lado contra a redução do IVA da eletricidade, e acabou, em menos de um ano, a exigir cabeças de ministros. Não se deteta coerência nem mensagem. A início, tentou vender-se como promotor de "consensos", mas rapidamente trocou a tática por pedidos de demissão ao governo. Em ambas, foi olimpicamente ignorado.

Eleitoralmente, os seus festejos nas regionais (em que foi o único à direita a não crescer) e nas presidenciais (em que se pode dizer o mesmo) demonstraram uma sobrenatural vocação para bater palmas perante o seu próprio funeral. Para transformar derrotas em vitórias, redes sociais e discursos em verso não chegam.

E a culpa de tudo isto? Segundo Rodrigues dos Santos, será das sondagens, da imprensa e da "oposição interna", que esteve calada durante um ano. Ser jovem e de direita, num país que está velho e de esquerda, não é fácil para ninguém, mas não perdoa tudo. Um partido com quadros com a experiência de Mota Soares ou Nuno Magalhães, o desprendimento de Mendes da Silva ou Anacoreta Correia, a força de Meneres Campos, o brilhantismo de Canto Moniz ou o talento de Francisco Camacho não merece o que lhe está a acontecer.

Falhar em reconhecê-lo seria sacrificar uma instituição fundadora da democracia em nome de um homem só. Seria profundamente cobarde. E Francisco Rodrigues dos Santos não é um cobarde.


Colunista

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