Duas histórias, a mesma racionalidade

1 Pedro Adão e Silva, que conheço há mais de 20 anos e de quem me considero amigo, será seguramente um excelente responsável pelas comemorações dos 50 anos do 25 de Abril de 1974. Não é por ser socialista ou próximo do PS, nem por ser uma figura conhecida na comunicação social ou sequer por ser um professor universitário que faz a sua carreira pública há muitos anos, avaliado seguramente em diversos momentos.
É provavelmente por ser também quase o seu "oposto": alguém que cresceu na democracia, que não se comoveu ou subjugou a convites e propostas partidárias ou institucionais, que fez o seu próprio caminho, bom, mau, mediano, como quiserem - mas que é o próprio reflexo de Abril: liberdade, não enfeudamento ao Estado ou a capitalistas em regime de monopólio, mundividência, navegar por latitudes mais amplas, individuais e coletivas.

O Pedro representa bem, portanto, o que é e o que pretendia ser o 25 de Abril. Ser, na sua remuneração, para este encargo, equiparado a diretor-geral na administração pública (ou seja, receber mensalmente cerca de 2300/2400 euros líquidos por mês...), basicamente o mesmo que o Pedro aufere hoje no seu trabalho como professor universitário, é quase risível, por mais audíveis e disseminadas que sejam as críticas a esse facto. Vai o Pedro tornar-se milionário por ganhar o mesmo salário que aufere hoje? Vamos talvez ter algum juízo, não?

Espero assim o melhor do Pedro Adão e Silva e daquela que seja a sua equipa. O 25 de Abril precisa efetivamente de ser, hoje, explicado, conhecido, valorizado e disseminado. Há uma geração que não sabe o que é isso. E há valores extremos e decisivos a preservar e a manter para o futuro. Viver sem censura, com liberdade de opinião, sem limites no acesso a cargos públicos, sem controlo pelo Estado da atividade económica e cívica. Vamos todos apoiar isto? Ou há quem queira retroceder à paroquialidade conveniente e bacoca do Estado Novo, com os intelectuais de serviço e mais alguns serviçais de copa, seja ela empresarial ou pública?

2 Foram, nesta semana que passou, execrados publicamente dois trabalhadores da TAP, porque foram a Madrid recrutar uma pessoa para trabalhar para esta empresa em Espanha e gravaram um vídeo, que divulgaram nas redes sociais, a contar as suas impressões desse recrutamento. Admito, claro, que talvez não o devessem ter feito... (e existem porventura regras prévias internas sobre isso na TAP?). Mas, estruturalmente, o que fizeram, de um ponto de vista objetivo, é também valioso: estamos aqui, estamos a recrutar e a procurar os melhores para trabalharem connosco, até porque existem hoje mais quadros disponíveis do que antes, vamos continuar e fazer melhor.

Num momento em que muitas companhias aéreas pelo mundo fora estão efetivamente a reduzir a sua dimensão, a TAP não passa incólume a isso. A opção portuguesa foi a de todos os contribuintes e os seus trabalhadores assegurarem os custos dessa redução. Mas isso significa que não pode ser recrutada uma pessoa como responsável de carga para Espanha? Não faço ideia, não conheço o negócio em concreto. Mas antevejo que possa ser um lugar fundamental para o negócio da TAP.

Esta história não é estruturalmente diferente da anterior: preferir-se um miserabilismo mediático que vende no imediato a uma decisão que é feita de futuro, para mais, aqui, com um suporte pesaroso, mediatizado e conveniente de um governante, que seguramente nada conhece do mundo das companhias aéreas.

Poderemos só ser decentes e pensar para além dos próximos meses e da notícia desta noite?

Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa

Mais Notícias

Outras Notícias GMG