Dos canhotos na política

Faz hoje 93 anos, na madrugada de 1 de junho de 1928, Portugal adotava finalmente a regra de trânsito que impõe a circulação pela direita nas faixas de rodagem. Dias antes de tal regra ganhar força de lei, este DN centenário lançara uma campanha de sensibilização pioneira, na área do marketing editorial: por todo o país, centenas de faixas e cartazes apelavam, com letras gordas, a que doravante toda a circulação de veículos se fizesse "Pela direita!", regularizando o sentido da marcha para evitar acidentes.

Com esta regra, que vinha da época napoleónica, Portugal acertava o passo com a maioria dos condutores europeus, ainda que um terço dos restantes, em particular nos países sob domínio da Commonwealth britânica, continue a circular pela esquerda e a medir o mundo em milhas e polegadas. A estes, o hábito, que já era o de contrariar, vem-lhes da antiguidade, quando cavaleiros viajantes precisavam de espaço à direita para desembainhar e brandir a espada. Foi, pois, preciso um Napoleão canhoto para nos dar a volta. É o que faz a política.

Metamos, pois, a embraiagem. Hoje, entre a esquerda e a direita política, as maiorias que decidem eleições, por norma moderadas e silenciosas, vão pela faixa central, obrigando os políticos de turno com aspirações ao poder a adotar a visão de um clássico da estatística segundo o qual o melhor lugar da praia para instalar a barraquinha dos gelados é ao centro, para melhor atrair os clientes, venham eles da esquerda ou da direita. No fundo, a demonstrar que o teorema enunciado para resolver uma venda trivial também é aplicável à política.

Na política interna, direita e esquerda aproveitam a primeira trégua da pandemia para engrossar a linguagem e vincar os traços contínuos ou as linhas vermelhas que as separam e não é suposto ultrapassar. Chamam-lhe bipolarização. Por mais que o PS e o PSD, tradicionais gestores do regime, se iludam na melancolia do bipartidarismo, governando em alternância, o baralho eleitoral é agora mais repartido e tem novas cartas, obrigando-os à negociação permanente e a maior jogo de cintura.

Problema maior é o de quem vai ao volante. É esse o busílis da direita, parte dela impaciente por Rio não revelar uma condução mais agressiva, uma liderança que dê mais "porrada", na expressão boçal do novo acelera na grelha. Mas também não vai ser fácil para a esquerda. A inédita solução que Costa engendrou há seis anos procurou inverter a marcha da troika e garantiu estabilidade política e económica, com resultados no emprego e na devolução de rendimentos aos portugueses. Mas vai ser doravante mais difícil repetir a receita, quando o país, cansado e deprimido pela pandemia, precisa de opções de fundo que requerem compromissos políticos e maiorias de maior dimensão.

Quando por toda a Europa se reclama por uma reconstrução "mais digital, mais verde e mais justa", ficam à vista os caminhos que é preciso percorrer para não perder o sentido da marcha. E nem é preciso prego a fundo. É certo que a pandemia implodiu planos e orçamentos, mas foi a emergência sanitária que permitiu chegar ao acordo europeu que promete colocar à disposição fundos com um grande potencial regenerador, se formos capazes de os distribuir e aplicar de forma mais eficiente e equitativa, acompanhando a saída da crise com reformas de longo alcance na esfera económica e nos direitos sociais. Enquanto direita e esquerda se recrearem na buzina, engrossando a linguagem e vincando os seus legítimos traços contínuos, o protagonismo continuará a ser do sinaleiro Marcelo. Não pode haver marcha-atrás. Ele sabe que a política é como andar de bicicleta: é preciso andar em frente para manter o equilíbrio.

Jornalista

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