Divulgar ciência na era da desinformação

Acaba de sair um número especial da Revista Ibero-americana de Ciência, Tecnologia e Sociedade, da OEI, dedicada ao jornalismo e à divulgação científica na era da desinformação. O tema havia sido escolhido em 2019, muito antes de se tornar essencial neste tempo de pandemia, e, por isso, não é de estranhar que os artigos sejam modulados pela atual situação, sem prejuízo de uma visão muito mais ampla. O volume é coordenado por Carlos Elías, responsável da cátedra Jean Monnet UE, Desinformação e Fake News, da Universidade Carlos III de Madrid, que há muito se dedica à relação entre jornalismo e ciência, que têm em comum a busca da verdade e a sua divulgação.

Há quase um ano que a nossa vida social assenta em grande parte na comunicação social, incluindo as redes onde desemboca todo o tipo de informação, muita sem qualquer suporte científico. Importa destacar o esforço dos profissionais para trazer até nós informação de qualidade (como é seu dever ético), apoiados por cientistas de diferentes áreas, o que demonstra a complexidade da pandemia. Canais televisivos enchem-se de epidemiologistas, virologistas, médicos de saúde pública, psicólogos, matemáticos, economistas, sociólogos e, não raro, especialistas de coisa nenhuma que nos enchem de palpites sobre tudo e nada.

A Organização Mundial da Saúde tem vindo a alertar para o perigo desta "infodemia" caracterizada pela avalanche de informação com consequências no equilíbrio mental das famílias, em especial das crianças e dos mais velhos. Muito mais perigosa é, porém, a propagação de informações que não conseguimos determinar serem verdadeiras ou falsas. É muito fácil acontecer, sobretudo quando estamos perante uma doença nova e mutável que acelera o medo do desconhecido e, ainda por cima, quando esse medo se associa a outros medos, como a crise social, a perda ou a incógnita sobre o futuro.

Um estudo elaborado pelo MIT a partir do Twitter mostrou que as notícias falsas se divulgam mais rapidamente do que as verdadeiras porque têm todos os ingredientes para o conseguir. A investigação baseou-se em 126 mil histórias/informações publicadas entre 2006 e 2017, concluindo que as notícias falsas provocavam medo, asco, surpresa, sendo emocionalmente poderosas, enquanto a reação às verdadeiras era de tristeza, alegria, antecipação. Além disso, como bem sabe o povo e bem o expressou António Aleixo, "Prá mentira ser segura/ E atingir profundidade,/ Tem que trazer à mistura/ Qualquer coisa de verdade." As falsas notícias são plausíveis, respondem a necessidades e aparecem muitas vezes embrulhadas numa roupagem de rigor, comprovativos (a maioria falsos) e até atestados de credibilidade.

É por isso que a desinformação é tão perigosa e exige de nós tanta atenção. Por um lado, assenta na crise generalizada de confiança nas instituições e, por outro, aparece como discurso antissistema respondendo às frustrações, crescentes em tempo de crise. É por isso tão importante aprender a comunicar ciência, não apenas pelas razões tradicionais que sempre invocamos de democratização do conhecimento, mas porque a nossa sobrevivência pode depender de uma divulgação rigorosa, atrativa e eficaz. Para não falar dos muitos interesses que se escondem por detrás das falsas notícias. Mas esse não é o único problema. Importa também potenciar uma ciência que seja socialmente relevante e contribua para o bem comum.


Diretora em Portugal da Organização de Estados Ibero-Americanos

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