Debates. Curtos, incisivos e a cobrir as partes essenciais?

Curtos, sem dúvida que sim! Não se entende este formato de debates com 12 minutos e 30 segundos para cada um dos participantes falarem das suas propostas, responderem às perguntas do entrevistador e ripostarem contra as afirmações dos seus adversários. Pouco tempo para tudo isto. Compreende-se a dificuldade na organização de debates com nove forças partidárias, sobretudo à luz do que são as prioridades televisivas. Mas não seria possível poupar no tempo dedicado ao comentário ou, quem sabe, cortar um pouquinho nos espaços desportivos e estender um tanto o espaço dos debates? Ou, por exemplo, complementá-los com uma entrevista de 15/20 minutos a cada um dos líderes partidários de modo a que os portugueses pudessem conhecer melhor as propostas que estão em jogo? Não é todos os dias que temos eleições!

Incisivos começaram a ser recentemente! Antes tivemos um pouco de tudo o que não interessa ao país. Ninguém quer saber se o André Ventura está ou não vacinado (estranha preocupação de António Costa), ninguém está muito interessado em conhecer as várias formatações da prisão perpétua, coisa que não existe em Portugal e é inconstitucional. Ainda que isso seja uma bizarra obsessão de André Ventura, não deveria merecer resposta de nenhum outro líder partidário. Muito menos de Rui Rio, que aspira ser primeiro-ministro e deve focar-se nos verdadeiros problemas do país.

Quanto ao que é essencial ao país, apesar do formato dos debates estilo biquíni, eles foram evoluindo ao longo dos dias e depois dos assuntos marginais começaram, paulatinamente, a surgir temas verdadeiramente importantes. Isso foi sobretudo visível no debate de Rui Rio com João Cotrim de Figueiredo, da Iniciativa Liberal, que analisou, com o detalhe possível, a baixa dos impostos, as privatizações de TAP, RTP e Caixa Geral de Depósitos, bem como o financiamento do SNS e da educação.

As questões ambientais têm estado também presentes nos debates, muito graças à qualidade de Rui Tavares, do Livre, que trouxe à luz do dia uma excelente e vibrante agenda ambiental.

Depois, e à data que escrevo esta crónica (quarta-feira), tem faltado a discussão de temas que poderão ser a nossa futura "dor de cabeça", tais como a elevada dívida de 127% do PIB, a questão da inflação e do aumento dos preços, a subida das taxas de juro da dívida soberana que poderá acontecer já a partir de março. Igualmente têm estado ausentes da discussão temas como o PRR, o desenvolvimento do interior, as questões do financiamento da cultura, o planeamento florestal e o combate aos incêndios, entre outros.

Mas este primeiro ciclo de debates teve o mérito de percecionar uma nova urgência nacional expressa na necessidade do crescimento. Os debates de Rui Rio com o CDS e com a Iniciativa Liberal consubstanciaram um alinhamento e uma narrativa política que se baseia na defesa do tecido empresarial, na necessidade de baixar os impostos de modo a tornar as empresas mais competitivas, colocando o crescimento económico do lado da produção e não do lado do consumo, retirando os excessos ideológicos da saúde e da educação, ao integrar as PPP no Serviço Nacional de Saúde, e ao dar ao aluno a possibilidade de escolha do ensino privado ou público.

Assim, no debate de Rui Rio com o CDS, ficámos também a saber que o CDS será o primeiro partido com o qual o líder do PSD falará caso ganhe as eleições. Poderá, então, estar a desenhar-se uma aliança PSD, CDS, Iniciativa Liberal, no caso de uma vitória laranja e se surgir uma maioria parlamentar. Portanto, desta banda, tudo um pouco mais clarificado.

Do lado socialista e ainda que António Costa tenha ganho os debates com Jerónimo de Sousa, André Ventura e Catarina Martins, a pergunta de um milhão de dólares é o que vai o secretário-geral do PS fazer se ganhar as eleições sem maioria absoluta. Uma aliança com o PAN, ou com o PAN e o BE? Ou estender uma passadeira vermelha a Pedro Nuno Santos? Um mistério ainda por desvendar!

Jornalista

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