De cantar a rir (1934-2021)

A palavra certa é versatilidade. Como é que um jovem que tocava banjo, soldado americano de ascendência hebraica mas agnóstico, licenciado em dramaturgia a fazer biscates limpando retretes em teatros e interpretando tragédias de Shakespeare, chega a contracenar com Elizabeth Taylor, Richard Burton e a merecer uma nomeação para Óscar? Uns diriam que foi o sonho americano em todo o seu esplendor; outros dirão que foi só o sonho de um rapaz de Long Island, nascido na década de 1930, numa família modesta, fã de truques de magia em festas de aniversário.

George Segal, mais conhecido pelo seu papel na adaptação ao grande ecrã do drama matrimonial Quem Tem Medo de Virginia Wolf? (1966), faleceu na passada terça-feira, aos 87 anos, na Califórnia. E a palavra certa é, como vimos, versatilidade. Segal não a tinha apenas na sua biografia, mas como talento, como ator. Do cinema noir à comédia televisiva, o norte-americano emprestava alguma normalidade a um tempo em que os atores de estúdio viviam ainda na presunção de uma aparência escultural, polida, uniforme.

Segal recusou mudar o seu apelido para algo mais comercial, menos judeu, ou fazer uma operação plástica que tornasse o seu nariz menos evidente, ‒ um feito raro na Hollywood dos anos 1960. "Não mudei o meu nome porque não acho que George Segal seja um nome pesado. É um nome judeu, mas não pesado. E também não acho que o meu nariz seja pesado... Uma operação plástica é que, sim, já me pareceria algo pesado... Topo-as sempre à distância", brincou, numa entrevista ao The New York Times, em 1971. A célebre Lauren Bacall, originalmente Betty Perske, era um antecedente conhecido na prática de renomeação. Cary Grant, nascido Archie Leach, também.

Para Segal, e a sua carreira de mais de 70 filmes demonstra-o, o desafio era manter a sua identidade enquanto homem, colocando-a ao serviço da sua arte: a representação. Depois dele, os heróis e beaus passaram a ser representados por atores não-WASP (white, anglo-saxonic and protestant), o que correspondeu a uma verdadeira revolução para a sétima arte na América, com efeitos até aos dias de hoje. Além dos já mencionados, partilhou holofotes com ilustres como Alec Guinness, Barbra Streisand, Jane Fonda e Robert Redford.

No início dos anos 1980, a sua carreira sofre um revés devido a comportamentos autodestrutivos e consumo de drogas. Segal, fiel a si próprio, regressa ao banjo e cria uma banda entre amigos como forma de terapia e reabilitação. Em 1982, chega a atuar em Israel, com sala cheia. "Ser ator é uma profissão de doidos. Somos um carro usado num parque de estacionamento à espera de que alguém nos venha encher os pneus. Só um doido faz vida disto", soltaria, noutra entrevista, sobre as pressões do ofício.

Em meados dos anos 1990, ressuscita numa comédia romântica (Flirting with Disaster) como o rabugento pai judeu de Ben Stiller, papel que levaria para o pequeno ecrã com Os Goldberg, em 2013.

Quando enviúva da segunda mulher, torna a fazer uso do passado como solução e casa-se com a ex-namorada da faculdade, Sonia, que viveu com ele até à sua partida, nesta semana. Quando inscreveram o seu nome na calçada de Los Angeles, no seu 83.º aniversário, confessou-se feliz pelo número de pessoas e amigos presentes. Quando filmava, impunha apenas uma condição: "Às dez da noite, tenho de estar em casa!"

Colunista

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