Da dificuldade em não falar da Palestina e da Nakba

Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!


(Bertolt Brecht, Aos que virão depois de nós)

Copio descaradamente, mas com uma vénia de agradecimento, o título e os versos de um recente e excelente artigo do antigo ministro Luís Castro Mendes publicado no DN (ver aqui). Modifico ligeiramente o título sem lhe alterar o sentido. Ele fala da Ucrânia e eu da Palestina. Dois horrores atuais. Um amplamente debatido, acompanhado, comentado e de uma forma ou de outra alvo de ampla solidariedade e apoio, e o outro silenciado, deturpado, esquecido, substituído por tantas "coisas inocentes".

A Ucrânia foi violentamente invadida. A Palestina foi violentamente invadida e o pouco que resta do seu território continua a ser invadido e ocupado continuadamente. Lentamente a Palestina está a desaparecer engolida por Israel. As sucessivas anexações russas na Ucrânia seguem o padrão das sucessivas anexações israelitas.

O horror na Ucrânia é terrível, o sofrimento imenso, a Paz urgente. Na Palestina o horror é permanente, o sofrimento colossal, a Justiça urgente, o fim do colonialismo e do racismo israelita premente.

Um colonialismo e um racismo denunciados pela Amnistia Internacional, pela Human Rights Watch e tantas outras organizações não-governamentais ocidentais.

Na semana passada a jornalista palestina Shireen Abu Akleh foi assassinada quando cobria mais um ataque israelita contra uma aldeia palestina. O seu funeral foi assaltado pelas forças israelitas, o seu caixão atirado ao chão quando os que o transportavam foram agredidos e violentamente afastados pela Polícia. Uma selvajaria sem limites.

A Nakba, a catástrofe, aconteceu em 1948 quando centenas de milhares de palestinos foram retirados à força pelas forças armadas israelitas e expulsos do seu próprio país, da sua terra. Nunca puderam voltar. Nessa mesma altura milhares de outros, homens, mulheres e crianças, foram mortos. As terras e as casas foram entregues a colonos israelitas. Um crime sem paralelo. Um roubo em larga escala.

Desde então Israel tem vindo a acantonar os palestinos em guetos, continuado a expulsa-los, a ocupar as terras e a nelas construir colonatos ilegais. Milhares de palestinos morrem todos os anos a resistir a esta invasão lenta mas continuada e brutal das suas terras. Periodicamente Israel bombardeia Gaza, um território densamente povoado, matando milhares de civis, destruindo escolas e infraestruturas básicas. O horror total e sem limites.

A coerência impõe-nos limites éticos. Condenar a Rússia sem condenar Israel é simplesmente hipocrisia. Apoiar a resistência ucraniana e Israel é ainda mais perturbador. Confronta-nos com o facto de o que se condena na Ucrânia afinal não é a invasão, pois se apoia este método na Palestina. Porque se deixa, então, cair a causa palestina e se permite a Israel, esta invasão, esta ocupação, todos estes horrores?

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