D. Maria da Glória

Começo por pegar ainda no tema da última crónica - os jacarandás em flor. Numa noite destas, o meu amigo Miguel Sousa Tavares assinalou-me com inteira justiça o seguinte: "Esqueceu-se da Avenida da Torre de Belém, que só tem jacarandás e que, além disso, é a mais bonita rua de Lisboa." Sendo verdade que apenas dera exemplos, só tenho de concordar, sem mais justificativos - com um forte abraço de estima antiga. E esta primavera tem conseguido que usufruamos uma das mais belas florações dos últimos anos, e estamos felizes por isso!

Continuando com reminiscências da estada da Corte portuguesa no Rio de Janeiro, assinalo a abertura da exposição do Palácio Nacional da Ajuda e do Museu da Presidência da República: D. Maria II - De princesa brasileira a rainha de Portugal - 1819-1853. No bicentenário do nascimento de D. Maria da Glória, com o atraso ditado pela famigerada pandemia, a mostra constitui uma justa homenagem a uma jovem rainha que teve importante papel no constitucionalismo português, ao lado de D. Fernando II, Saxe-Coburgo, um rei que marcou pela cultura e pela sensibilidade artística, que soube ser muito mais do que um príncipe consorte, fazendo jus à tradição portuguesa que atribui ao marido da rainha o título de rei, desde que tenha descendência. E neste caso foi pai de dois reis. Um marcado pelo carisma e pela tragédia, D. Pedro V. Outro pela moderação, D. Luís. D. Fernando está bem vivo nas belas tradições de Sintra, desde o Palácio da Pena ao Chalé da Condessa de Edla. D. Pedro V criou o Curso Superior de Letras, protegeu as letras e as artes, admirou Camilo, e quando morreu na flor da idade levou a que o austero Alexandre Herculano chorasse lágrimas de verdade. D. Luís traduziu Shakespeare e foi um assinalável melómano, dizendo a tradição que cantou em casa de Rossini, em Paris, a romanza do Trovador com acompanhamento ao piano do próprio Verdi...

No Palácio da Ajuda, temos uma exposição sobre a figura, a vida e a personalidade da rainha, mais do que a sua biografia política, sendo certo que a jovem se viu em andanças políticas desde os 7 anos de idade, com três casamentos e decisões muito difíceis de tomar. Na mostra encontramos o belíssimo retrato da rainha com 10 anos de idade, por Thomas Lawrence, vindo da coleção da rainha de Inglaterra, bem como as joias pessoais, elementos da vida quotidiana e a coroa portuguesa, que há cerca de duas décadas não era mostrada ao público - lembrando-nos a memorável exposição dos Tesouros Reais (1991). Num período muito difícil da vida política portuguesa, marcado por três guerras civis (entre D. Pedro e D. Miguel; Maria da Fonte e Patuleia), podemos dizer que D. Maria II foi sempre um símbolo: da vitória liberal e do caminho que culminou na Regeneração e no Ato Adicional de 1852 à Carta Constitucional, fundamental compromisso entre as diferentes correntes liberais - cartistas e constitucionalistas. De facto, quando a rainha morreu de parto, o décimo primeiro, com apenas 34 anos, estava aberta a mais duradoura das nossas experiências de liberalismo democrático.

E assim, no momento em que celebramos os duzentos anos da feitura da nossa primeira Constituição, é importante recordarmos a memória de quem, apesar de muitas vicissitudes, e compreensíveis hesitações, num contexto marcado por personagens intensas e contraditórias, como António Bernardo Costa Cabral, futuro marquês de Tomar, e o marechal duque de Saldanha, viu o seu reinado terminar em clima de convergência e alternância política. A mostra e o catálogo, em que se nota competente coordenação de José Miguel Sardica, são oportunidades para lembrarmos raízes antigas do constitucionalismo português.

Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

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