Cultura entre parêntesis

Em tempos de pandemia ajustámos as nossas vidas, reconduzimos as necessidades ao essencial, fechámo-nos no núcleo restrito das nossas casas. E em grande parte deixámos de poder alimentar o espírito através da fruição cultural, alimento tão importante quanto o do corpo. Essa abstinência forçada, prolongada, priva-nos da experiência indeclinável do belo. Do belo que não pode ser experienciado no isolamento das nossas casas, mas que precisa do espaço, do momento, de pessoas que constituem o público para quem faz sentido, naquele momento, aquela criação irrepetível.

Do lado dos criadores o esforço de procurar alternativas tem sido extraordinário e há exemplos notáveis de propostas que funcionam. Mas não são substitutivas e, na maioria dos casos, mesmo fazendo uso de toda a criatividade, não é mesmo possível encontrar paralelo para a experiência do espaço e da proximidade física. Podemos ver teatro ou um bailado na televisão ou no ecrã do computador, mas faltará sempre a proximidade física que envolve atores ou bailarinos e público e torna cada momento único. Podemos visitar exposições e museus online, mas não conseguimos experienciar o envolvimento do espaço, percecionar a dimensão das obras, contemplar em conjunto com outros, muitos desconhecidos, que pela simples forma como se movimentam nos oferecem silenciosa e delicadamente perspetivas diferentes. Podemos assistir a concertos, e é bom, mas não substitui sentir a vibração conjunta dos artistas no palco e do público ao nosso lado. Podemos encomendar livros online, mas não conseguimos ter a experiência de frequentar uma livraria e perdermo-nos entre estantes a folhear e a sentir o perfume dos livros. Todas estas experiências fazem-nos muita falta, pelo que significam em cada momento e pela forma como perduram e fecundam continuamente as várias dimensões da nossa vida.

Se esta ausência deixa marcas, como a nossa pele, que tem memórias para a vida, pior é pensar na dificuldade dos agentes da cultura, nas suas múltiplas dimensões, e saber que em muitos casos este parêntesis na cultura pode significar a incapacidade para recuperar. Do desemprego crescente entre os artistas ao encerramento das livrarias, percecionamos uma crise que tem indícios de se aprofundar em paralelo com a crise económica e social crescente.

Aqui, como noutros domínios da governação, o silêncio reina e é mais ensurdecedor do que as salas de espetáculos fechadas. Silêncio que não é de agora, mas agora ainda é mais chocante. Silêncio de uma política de cultura consistente e de uma ação consequente. Basta lembrar o desagrado dos agentes culturais e a manifestação inédita, em 2018, que uniu todo o setor, para recordar como as coisas já andavam muito mal. Mudou o governo e veio nova titular da pasta, mas nem por isso a cultura sentiu melhorias, no meio de gafes e falta de eficácia. Em tempos de pandemia, as tomadas de posição e manifestações continuam a dar nota do desespero do setor onde a recolha de alimentos cresce para ajudar os que mais precisam.

Sem cultura não há presente nem futuro. Sem cultura ficamos amputados de uma dimensão inalienável da nossa existência. É por tudo isso que os apoios têm de ser sérios, transparentes, consistentes e consequentes. É tempo de o governo acordar, de dedicadamente perceber as especificidades de cada área, e com atenção e criatividade encontrar as formas adequadas de apoio para garantir que passado o cabo das tormentas há agentes culturais e público, unidos na construção e na reconstrução de cada momento.

Professora da Nova School of Law. Coordenadora do Mestrado em Direito e Economia do Mar

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