Covid 19 – o mundo está a desconseguir!

O que nos passou pela cabeça quando, no início da atual pandemia da covid-19, pensámos que a humanidade poderia mudar, tornando-se mais empática e menos movida pela ambição desregrada (e até mais "ecológica")? Serão os seres humanos incorrigivelmente ingénuos e otimistas? E isso é bom ou mau?

Discussões "filosóficas" de mesa de bar à parte, a verdade factual é que o mundo está a desconseguir combater eficazmente a covid-19. A única coisa mais ou menos surpreendente foi a rapidez do desenvolvimento das vacinas (facilitado, recorde-se, por anos de pesquisas sobre os coronavírus), mas o que as nossas sociedades resolveram fazer com esse autêntico feito é indigno do esforço dos cientistas em todo o mundo para produzir as referidas vacinas.

Nesse ponto, sou radical (adjetivo que, é bom não esquecer, significa apenas "ir à raiz do problema"): a vacinação anticovid deve ser obrigatória. Ponto. Se os governos em todo o mundo tivessem adotado essa norma quando as vacinas foram disponibilizadas, as restrições universais por causa da referida pandemia já poderiam ser, neste momento, amplamente minimizadas.

A propósito, é impossível deixar de apontar as profundas contradições daqueles que defendem o fim dessas restrições, em nome, por exemplo, do funcionamento da economia, e ao mesmo tempo são contra a única estratégia conhecida para eliminá-las: a vacinação. Não faz o menor sentido. Não tem, de facto, outro nome senão burrice.

A crise do multilateralismo e do papel das organizações mundiais, um dos mais perigosos efeitos colaterais do neoliberalismo (pela reação hipernacionalista que tem provocado, a qual, por sua vez, é um dos argumentos dos movimentos de extrema-direita em todo o mundo), é uma das causas para o "desconseguimento" do mundo perante a covid-19. Uma pandemia do tipo da que a humanidade enfrenta desde o início de 2020 deveria obrigar a um papel central da Organização das Nações Unidas e dos seus organismos especializados, com natural relevo para a OMS.

Outra razão de fundo para a dificuldade do mundo em superar a pandemia é a cobardia dos governos democráticos em lidar com aqueles que, abusivamente, invocam os princípios democráticos, nomeadamente a liberdade individual, para porem em causa as medidas para assegurar a saúde pública e, no limite, a vida de todos os cidadãos. Isso não é ocasional. Trata-se, quanto a mim, de usar a liberdade e a democracia para pô-la em xeque, o que não é a primeira vez que sucede na história da humanidade.

Ninguém acha estranho, mesmo, que a liberdade seja uma palavra que está permanentemente na boca de negacionistas, supremacistas étnicos e religiosos, racistas, fascistas e assassinos potenciais? A democracia, diga-se, precisa de defender-se e não ser condescendente com aqueles que querem enfraquecê-la e eliminá-la, usando, muitas vezes, os instrumentos da própria democracia. Apenas a título de exemplo, faço meu o questionamento da jornalista brasileira Lúcia Guimarães, da Folha de S. Paulo, quando pergunta, em artigo publicado no passado dia 21 de julho, se a desinformação promovida por veículos com a Fox News ou big techs como o Facebook será mesmo "liberdade de expressão".

"Assassinos potenciais", escrevi eu atrás. Exagero? Comparemos então o risco de ter de conviver com um antivacinas e o possível relacionamento com alguém contaminado com sida. Como se sabe, em muitos ordenamentos jurídicos, se não todos, se algum sidático se relacionar sexualmente com alguém sem prévio conhecimento deste, o facto é considerado crime. Ora, a covid-19 é igualmente transmissível e também mata (mais depressa do que a sida). O que esperam os governos para tornar obrigatória a vacinação contra o novo coronavírus?

Jornalista e escritor angolano, publicado em Portugal pela Caminho

Mais Notícias

Outras Notícias GMG