Corrida aos fundos europeus ou à liderança no financiamento sustentável?

Por vezes, basta olhar para um único dia do calendário para se entender a dimensão da mudança que estamos a enfrentar na área do crescimento verde e do financiamento sustentável.

Ontem, comecei o dia lendo as notícias sobre os maiores prejuízos financeiros de sempre na indústria petrolífera - a Exon perdeu 20 mil milhões de dólares e a BP perdeu quase seis mil milhões de dólares - não só em resultado da pandemia, o que seria óbvio, mas também, e isso sim é revelador, em consequência da maior penetração dos combustíveis limpos e das tecnologias renováveis.

Depois, participei na reunião anual, dedicada aos temas do desenvolvimento, que juntou os países da OCDE e os governos e fundos árabes que, apesar de serem os maios produtores de petróleo, colocaram de parte qualquer narrativa de ceticismo climático e assumiram um compromisso firme de investimento na transição energética.

Passadas poucas horas, promovi um debate, na OCDE, com Larry Fink, CEO da Blackrock, sobre os desafios da economia neutra em CO2.

Alguém acreditaria, exceto aqueles que, como eu, há décadas se dedicam aos temas das alterações climáticas, que chegaria o dia em que o líder do maior fundo de gestão de ativos financeiros a nível mundial (8,7 biliões de dólares) não só assumiria que todo o financiamento não sustentável do seu portefólio de investimentos seria removido, como ainda desafiaria todas as empresas mundiais a aprovar e publicitar planos de neutralidade carbónica, assumindo que o risco climático é, na prática, um risco de investimento?

Estamos perante uma mudança acelerada nos sistemas de produção, de consumo e de investimento. Depois da aprovação do Acordo de Paris e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), em 2015, e ainda que estejamos longe da ambição que é necessária, são inúmeros os sinais de esperança no esverdeamento da inovação, da economia e do sistema financeiro.

Hoje, mais de 30 biliões de ativos sobre gestão estão alocados à área da sustentabilidade; o custo das tecnologias limpas - mobilidade elétrica, armazenamento de energia, produção de energias renováveis - caiu de forma vertiginosa nos últimos dez anos; estima-se que a integração das questões climáticas nas estratégias de desenvolvimento económico adicionará 5% à taxa de crescimento económico até 2050 e que cumprimento dos 17 ODS pode gerar 380 milhões de novos empregos até 2030.

Mas não basta enunciar as boas tendências e verbalizar narrativas esperançosas. A incapacidade de enfrentar os desafios do desenvolvimento sustentável e da descarbonização não reside no défice de financiamento - existem 379 biliões de dólares disponíveis no sistema financeiro (bastaria 1,1% deste montante para suprir as necessidades anuais de financiamento ao desenvolvimento sustentável); reside antes no défice de reformas políticas (que criem o contexto adequado ao investimento verde e sustentável) e no défice de lideranças políticas e empresariais.

A discussão sobre o financiamento pós-covid não se pode resumir a uma corrida aos fundos europeus (a famosa bazuca), descurando a importância dos mecanismos de atração de investimento privado e internacional.

Do lado das políticas públicas, é essencial que, além das medidas de reforço significativo da ambição climática, se concretize, no contexto nacional, europeu e internacional, uma verdadeira regulamentação e regulação do financiamento sustentável. Não tiraremos verdadeiro partido do financiamento sustentável se não ultrapassarmos os problemas de falta de transparência, de coerência e de comparabilidade (agravados pela proliferação de mecanismos voluntários ou privados de medição, de avaliação e de reconhecimento do retorno económico, social e ambiental do investimento sustentável).

E do lado do setor financeiro, é urgente que se assuma, como prioridade, o financiamento da descarbonização do tecido empresarial e a criação e o desenvolvimento de novas empresas associadas à economia verde, tirando partido dos mecanismos de financiamento inovadores (garantias, investimento de impacto, blended finance, green bonds).


Diretor da Cooperação para o Desenvolvimento da OCDE; presidente da Plataforma para o Crescimento Sustentável

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