Como os partidos morrem

O best seller, de Levitsky e Ziblatt, Como as Democracias Morrem, de 2018, merecia, a propósito das duas principais eleições no mundo neste ano, França e Brasil, um apêndice chamado Como os Partidos Morrem, sobre o Partido Socialista francês, que ainda há cinco anos era governo e hoje vale 1,75% dos votos, e do Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB), um outrora protagonista transformado em pó.

Mas por qual razão a formação de Fernando Henrique Cardoso (FHC) e de outros founding fathers da Nova República, que corajosamente se emancipou em 1988 do clientelista MDB [Movimento Democrático Brasileiro], agoniza?

Quando, afinal, os tucanos (animal que serve de símbolo ao PSDB, por sinal, em risco de extinção) passaram de competitivos - além de duas vitórias de FHC, os barões José Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves disputaram segundas voltas com Lula e Dilma, do PT - a insignificantes?

É um processo, claro, mas, se quisermos definir uma hora e um lugar, as 19h30 de 26 de outubro de 2014 e a casa de Aécio são boas escolhas. Ali, o candidato presidencial - e os seus elegantes convidados - foi filmado, com garrafas de champanhe ao fundo, a vibrar com as projeções na TV que o davam como vencedor das eleições. Meia hora depois, somados os votos todos, a vitória acabou atribuída a Dilma por 3,5% de diferença.

Mimado, o neto de Tancredo Neves difamou as urnas eletrónicas, talvez o mais fiável sistema de contagem de votos no mundo, dando azo a que, oito anos depois, Bolsonaro, preparando eventual derrota, as conteste através de teorias da conspiração tão toscas quanto ele.

Entretanto, menos de um ano depois, o mimo de Aécio levou-o a combinar com o vice eleito, Michel Temer, puxar o tapete a Dilma, surfando na crise económica e na Lava Jato, cujo alvo, soube-se depois através do acesso a mensagens entre o juiz Moro e os procuradores, era o PT, custasse o que custasse.
Aécio pensou que, esgotada a interinidade de Temer, a presidência lhe cairia no colo e o champanhe jorraria, finalmente, na alcatifa da sua casa em 2018.

Mas, em 2017, telefonou a um empresário corrupto, que tinha o hábito de gravar interlocutores poderosos, a pedir, entre outras coisas, uns milhõezinhos emprestados.

Os eleitores que se preparavam para castigar o PT e votar em peso no PSDB entenderam a mensagem como um "é tudo farinha do mesmo saco" e viraram-se para o primeiro que apareceu com o discurso da "não política", prometendo "acabar com a corrupção" e garantindo ser "muito temente a Deus", por mais aldrabão, corrupto e demoníaco que fosse - e era.

E nas eleições de 2018, o PSDB, através de Alckmin, escolhido para o lugar do carbonizado Aécio, perdeu 45 milhões em comparação com 2014.

Dá para piorar? Dá.

Para 2022, o partido, que sempre adorou imitar os EUA, decidiu fazer primárias, nas quais João Doria bateu Eduardo Leite. Resultado: a cúpula do partido, que preferia Leite, incentivou o derrotado a ocupar o lugar do vencedor. Consequência: após novela de meses, nenhum dos dois se candidata. Conclusão: desta vez, o partido perderá as eleições por falta de comparência.

Os tucanos dividem-se agora entre apoiar Lula, visto como mal menor face a Bolsonaro, apoiar Bolsonaro, visto como mal menor face a Lula, ou apoiar oficialmente Simone Tebet, do MDB, o mesmo partido clientelista do qual acharam que se tinham emancipado em 1988.

Jornalista, correspondente em São Paulo

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