Como a Lua foi fundamental para libertar o Canal do Suez*

*E não, não tem nada a ver com astrologia. Muito pelo contrário. Aliás, o facto de esta pseudociência insistir em não morrer é um dos maiores atestados que existem do falhanço do sistema de ensino.

A Lua foi um auxiliar precioso para conseguir desbloquear o Canal do Suez, esta segunda-feira. A atração gravitacional do nosso único satélite natural(1), que é a grande responsável pelas marés, fez com que a água no canal subisse e com que a operação de desencalhar o Ever Given fosse finalmente bem-sucedida.

Segundo o The New York Times, citado pelo Space.com, as águas subiram até 46 centímetros, empurradas ainda por um vento propício, para facilitar todas as manobras.

É isto que a Ciência tem de belo, que mais nenhuma disciplina da atividade humana pode chamar a si: explica, compreende como os fenómenos naturais se concretizam, prevê os seus resultados e, tudo correndo bem, utiliza-os para proveito da humanidade.

Se correr mal, bem, então é regressar ao estirador e começar tudo de novo.

Sendo a Ciência a forma mais útil e eficaz alguma vez inventada de descrever a realidade -- e de a manipular a nosso favor --, não deveriam ser os princípios do pensamento científico algo a ensinar às crianças mais ou menos juntamente com o abecedário? (Estou a caricaturar, mas penso que percebem aonde quero chegar.)

No entanto, faz-se exatamente o inverso.

Parte-se do princípio de que ciência é algo só para alguns "eleitos" -- os das "matemáticas" -- e que todos os outros -- os das "humanísticas" -- não precisam de nada disso.

Depois, faz-se uma deturpação ainda mais aviltante, quanto a mim. Como é de mau tom haver "ciência de primeira" (as exatas) e "ciência de segunda" (as outras), são todas colocadas no mesmo plano do conhecimento.

(A primeira prova oral a que chumbei, na Faculdade de Direito de Lisboa -- concluí o curso sem nunca ter repetido um ano -- foi a Introdução ao Direito, em 1991. Acabei-a a tentar explicar ao assistente que me fazia a prova, um rapaz de 30 e poucos anos, por que razão o Direito não devia ser considerado uma Ciência -- c maiúsculo --, uma vez que não seguia o método científico nem fazia previsões comprováveis de fenómenos que viriam a acontecer. Era, "apenas" uma disciplina do "conhecimento" [lato senso] humano. Não correu bem. Ainda hoje acho o mesmo. E que Shakespeare tinha razão quanto aos advogados, mas isso é outra história...)

Comparar Física ou Medicina com Direito ou História é mais ou menos a mesma coisa que dizer que conduzir um Ferrari é o mesmo que andar de Prius. São simplesmente coisas diferentes, com objetivos de tal forma distintos que não podem ser metidos no mesmo saco. Qualquer comparação (ok, ambos os carros têm quatro rodas) é quase mera coincidência (ok, todos os cursos são dados em faculdades).

Mas nada impede que alguém que siga Direito (eu) ou História não tente, pelo menos, ter um pensamento científico. E que não tente compreender o mundo que o rodeia, a forma como ele funciona. Porque quer queiramos quer não, factos são factos e não há argumentos que os mudem.

Observação, teorização, experimentação. O poder destas três palavras é praticamente infinito. Mas com uma condição: sermos capazes de ter a coragem de aceitar os resultados como eles são e não como gostaríamos que eles fossem.

Ah, se fôssemos capazes de ensinar isso nas escolas aos nossos miúdos!

Mas não. Estamos demasiado preocupados em dizer-lhes que o que é importante é que todas as ideias podem ser boas, mesmo as que não podem de todo ser verdadeiras.

Tomemos a astrologia como exemplo acabado.

Inventada há cerca de 5000 anos na Babilónia, quando não se fazia a mínima ideia do lugar do planeta no Universo -- quer dizer, nem se sabia o que era o Universo --, parte de uma quantidade de princípios que estão, simplesmente, errados.

Para agravar a situação, com a oscilação do eixo da Terra enquanto esta se desloca (junto com o Sistema Solar) pela Via Láctea(2), as posições relativas das constelações, os locais onde elas aparecem no céu numa dada altura do ano, mudaram de sítio. Grosso modo, nestes quatro mil e tal anos, andaram "uma casa" para trás. Assim, quem "nasceu em aquário" na realidade nasceu "sob o signo de capricórnio".(3) Ou seja, está MESMO tudo errado.

Por fim, e se fosse preciso mais alguma coisa, as chamadas constelações são agrupamentos de estrelas que vemos alinhadas no plano do firmamento, mas que na realidade estão separadas tridimensionalmente por milhares ou centenas de milhares de anos-luz.

Hoje temos tecnologia suficiente para medir ondas gravitacionais de fenómenos ocorridos a milhares de milhões de anos-luz de distância(4) -- o primeiro caso foi o choque de dois buracos negros a 1,8 mil milhões de anos-luz. Mas não há qualquer energia que se consiga medir vinda de, sei lá, a constelação de Caranguejo que seja capaz de influenciar o que vai acontecer na tarde deste dia, ou de outro qualquer, seja lá a quem for.

A necessidade de saber o que o futuro nos traz -- bem como o conforto de pensarmos que não estamos sozinhos no Universo, de que fomos "aqui postos" com um propósito, que algo ou alguém vela por nós (a raiz de todas as religiões) -- é algo profundamente humano. Não há nada de vergonhoso nisso. Muito pelo contrário. Tanto quanto sabemos, será das poucas coisas que nos separa do resto do reino animal(5).

Mas não deveremos ter a plena capacidade de encarar o desconhecido de frente? Afinal, possuímos as armas que a natureza nos deu, sim, mas trazemos ainda aquelas que conquistámos: a tecnologia que criámos, a sabedoria que adquirimos, a experiência que acumulámos.

Com tudo isto, para que precisamos de astrologia, mitos, deuses e outros profetas a dizerem-nos que atitudes devemos tomar?

Rex Stout (1886-1975), escritor americano de livros policiais (e grande gourmet) inventou um dos maiores detetives privados da literatura: Nero Wolfe, que resolve todos os crimes sem nunca sair de casa. Quem faz o trabalho de campo é o seu sidekick, Archie Goodwin - outra personagem memorável. Muitas vezes, este pergunta-lhe se tem instruções específicas sobre o que fazer. Wolfe responde-lhe simplesmente: "Use a inteligência, guiado pela experiência".

Não há melhor astrologia do que isto.

(1) Único que conta. Haverá pelo menos mais um, mas é tão insignificante que vou fazer como fazia a nobreza com os filhos enjeitados: atirá-lo para uma torre alta do castelo (ou para um mosteiro) e fazer de conta que não existe.

(2) Já conclui, em conversas privadas com várias pessoas, que muita gente -- arrisco dizer a maioria das pessoas -- que acredita ou pelo menos diz não "desacreditar" em horóscopos não tem, na realidade, uma imagem mental muito precisa da Galáxia espiral em que habitamos (com os seus cerca de 200 mil milhões de estrelas e quatro braços) e de que ela está em rotação. O Sistema Solar encontra-se quase na extremidade de um desses braços e orbita o centro da galáxia e, como tal, está em permanente movimento relativamente ao seu centro -- uma rotação completa demora cerca 230 milhões de anos.

(3) Nem sequer é bem assim, porque na realidade é suposto haver 13 signos e não 12, mas já me estou nas tintas

(4) Um ano-luz é a distância percorrida pela luz (a 300 mil km por segundo) durante um ano. Ou seja, 9,46 milhões de milhões de quilómetros.

(5) Ainda que Jane Goodall, por exemplo, tenha especulado que alguns comportamentos observados nos chimpanzés se comparam a ritos religiosos [Primate spirituality, em Encyclopedia of Religion and Nature, 2005]. E há outros casos conhecidos em primatas. Também os golfinhos parecem ter um lado espiritual -- pelo menos artístico.

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