Coisas de loucos

Estranhezas da capital: em Lisboa, é a partir das necrópoles que se têm algumas das melhores vistas da cidade e do rio, como se quiséssemos dar aos mortos o que lhes negámos em vida, horizontes largos, de esperança e luz. Durante anos a fio, passei à porta do Cemitério da Ajuda e, não sei porquê, fui adiando a entrada, à espera do dia certo, que tarda. Nunca vi nem senti nos pés, portanto, as ondulações de uma rua que por lá existe, com seu quê de sinistro e mórbido. Nessa rua, o asfalto tem altos e baixos, como uma cobra a serpentear ao sol, o que se deve, soube-o agora, às sucessivas vagas de enterramentos colectivos que por lá se fizeram.

A acumulação das ossadas fez o pavimento ficar assim, com um aspecto curvilíneo, a lembrar que por baixo de nós se encontram gerações de cadáveres enterrados em valas comuns. Gente pobre, ignorada, por certo pouco letrada, sem direito a jazigo ou campa própria, gente a quem a família não pôde ou não quis pagar a despesa de um funeral condigno, com sepultura perpétua. Entre a verdura do Monsanto e o azul do Tejo, ao lado dos túmulos de Gago Coutinho, de "Matateu" e de "Pepe", desvenda-se ali, no cimo da Ajuda, um retrato a sépia de Portugal inteiro, ilustração eloquente, calamitosa, do país que fomos - e que, em parte, ainda continuamos a ser, em muitas das suas injustiças e dos seus desastres.

É nessa rua de asfalto que, a par de muitos outros, se encontram os restos de Manuel Soares, falecido de "caquexia disentérica" aos 26 anos, em 1908, o ano que também morreram, fuzilados no Terreiro do Paço, o rei D. Carlos I e o seu primogénito, príncipe Luís Filipe. Manuel era polícia, casara-se no ano anterior com Leopoldina de Almeida, uma jovem de 18 anos, natural da Caparica, filha de uma doméstica e de um carpinteiro que fora exposto na Roda de Lisboa. No baptismo de Leopoldina, em Maio de 1889, os seus padrinhos não assinaram o registo "por não saberem escrever". Manuel e Leopoldina casaram-se em Lisboa, na Igreja de Nossa Senhora da Pena, e foram morar para Belém, no 1.º andar do n.º 139 da Rua do Embaixador, prédio que ainda hoje existe, quase ao abandono, e por onde passou vária gente: um moço da aviação, um engenheiro, um agente da PIDE, um casal que se desentendeu com o senhorio, por causa da renda, e foi morar para o Cacém. Estiveram casados um ano e um mês, não mais. Manuel morreu às duas da tarde de 9 de Outubro de 1908 e foi enterrado no dia seguinte no Cemitério da Ajuda, não longe de onde morava. Leopoldina ficou viúva aos 19 anos.

Se hoje sabemos quem foi Manuel, a ela o devemos. Melhor dizendo, à sua loucura. Por estranho que pareça, conhecemos o destino de Manuel e de Leopoldina porque esta enlouqueceu, ou assim disseram. Como acontecia a muitas mulheres do seu tempo e da sua condição, a viuvez tirou-lhe o amparo, os meios de subsistência. Aos poucos, foi incapaz de cuidar de si, cortou relações com as irmãs, deixou de fazer trabalhos de modista, empenhou os escassos oiros que tinha. Às 00h15 de 27 de Fevereiro de 1940, uma terça-feira, o guarda n.º 3094, José Guerreiro, ao fazer a ronda nas imediações do Miradouro de Santa Catarina, descobriu-a a dormir na entrada de um prédio, o n.º 36 da Rua Marechal Saldanha, local que é hoje o "Palácio Camões Serviced Apartments".

Rotulada como "mendiga", que indiscutivelmente o era, Leopoldina foi levada para os calabouços da 3.ª esquadra, na Travessa das Mercês, sob a alçada da Secção de Costumes e de Sanidade da PSP. Chamadas a depor, as irmãs concordaram pagar a quantia necessária para enviá-la para o Asilo da Mitra, onde Leopoldina se tornou a "Albergada 5755". De acordo com algumas estimativas, 70 por cento dos residentes na Mitra sofriam de perturbações mentais e, das mulheres com mais de 50 anos aí internadas, 60 por cento eram viúvas, prova de que, como sucedeu a Leopoldina, a morte do marido equivalia, naqueles tempos de escassa ou nenhuma protecção social, ao resvalar na miséria e na mendicidade - e, muitas vezes, na alienação.

Ao fim de dois anos na Mitra, transferiram-na para o Manicómio Bombarda, em Abril de 1942, onde morreu em 1961, aos 72 anos, de trombose cerebral. À entrada no hospital psiquiátrico, Leopoldina foi despojada dos seus pertences - um pequeno crucifixo, o bilhete de identidade, um par de óculos partidos, folhas de papel azul escrevinhadas com pedidos oficiais, um molho de quatro chaves, duas das quais duplicadas - e foram esses parcos haveres que permitiram a reconstituição da sua vida. Sem eles, sem os objectos, não teria sido possível à jornalista Catarina Gomes refazer o percurso de Leopoldina e de outros como ela, num trabalho extraordinário de investigação a que deu o nome Coisas de Loucos. O Que Eles Deixaram no Manicómio (Edições Tinta-da-China, 2020). É precisamente a partir das coisas, dos bens terrenos e palpáveis descobertos numa caixa dos arquivos do Bombarda, que Catarina Gomes desenvolve a sua pesquisa, feita com um afã e uma minúcia quase tão demenciais como as das vidas que resgata do esquecimento e que, insiste-se, só hoje existem e são evocadas por causa de singulares objectos: os instrumentos de precisão de Noé Falcão, relojoeiro; as fotografias de Simão Carvalho Proença; os papéis perdidos de Manuel de Avelar Rodrigues, capitão de longo curso; as cadernetas bancárias de Ricardo Vinte Um; os lavores de Valentim, bailarino perseguido pela sua homossexualidade.

Os que conquistam a fama, e têm ruas com nome e entradas nas enciclopédias, não precisam de objectos para serem recordados.

A fama é isso mesmo, um prestígio e uma memória não carentes de suporte material. Os outros, como nós, vulgares e anónimos, comuns mortais, serão lembrados na memória dos mais próximos por alguns anos, durante uma geração ou duas, mas só conseguirão libertar-se da lei do esquecimento se por cá deixarem algo de concreto e tangível que possa ser associado à sua pessoa, seja uma casa ou uma colecção, uma biblioteca memorável ou um objecto estimado.

Contudo, e como bem sublinha Catarina Gomes, as coisas só têm sentido na relação connosco, que lhes damos vida e propósito. Perdido numa cave escura, um quadro de Leonardo que ninguém conheça não passa de um pedaço de madeira pintado a óleo. Um molho de chaves numa ilha deserta não tem valor algum, nem sequer artístico. Todo o punhal é uma morte latente, um golpe à espera de acontecer, mas só cumprirá o seu desígnio homicida se nós o despertarmos para isso: "Dorme o teu sono tranquilo / no meio de tranquilas coisas, / não te impacientes, punhal.", escreveu Jorge Luis Borges, que às coisas dedicou outro imortal poema:

A bengala, as moedas, o chaveiro,
a dócil fechadura, as tardias
notas que não lerão os poucos dias
que me restam, os naipes e o tabuleiro,

um livro e em suas páginas a ofendida
violeta, monumento de uma tarde,
de certo inesquecível e já esquecida,
o rubro espelho ocidental em que arde

uma ilusória aurora. Quantas coisas,
limas, umbrais, atlas e taças, cravos,
nos servem como tácitos escravos,
cegas e estranhamente sigilosas!

durarão muito além de nosso olvido;
e nunca saberão que havemos ido.

Tendemos a odiar os objectos como fossem eles, não nós, os causadores do materialismo, do consumismo, daquilo a que, sintomaticamente, chamámos "coisificação" ou "reificação" da realidade social e humana. Esquecemo-nos de que as coisas, em si mesmas, só têm o significado e o valor que decidirmos dar-lhes. Conta-se que, em 1519, quando Hernán Cortés chegou ao México, os astecas ficaram surpreendidos pela avidez dos conquistadores espanhóis pelo ouro, um metal bonito e brilhante, por certo, mas que não podia ser comido ou bebido, ou sequer tecido, e que era demasiado macio para ser usado em armas e ferramentas. Quando os nativos interrogaram Cortés sobre a razão de tal cobiça, este terá respondido que ele e os seus companheiros tinham uma doença de coração que só poderia ser curada com ouro. Os astecas acharam tudo aquilo uma coisa de loucos.

Nesta idade digital, fala-se agora muito de "desmaterialização" e é um facto que a riqueza e o poder, antes medidos a partir de coisas corpóreas, adquiriram hoje novos contornos e novas significações. A evolução, todavia, deu-se quase sempre para pior. Como refere a economista Mariana Mazzucato em The Value of Everything, até à década de 1960 o sector financeiro não era sequer considerado um ramo de actividade produtiva, sendo visto com um acessório que tinha a função instrumental de fornecer o crédito necessário para que os outros abrissem fábricas, comprassem terras e desenvolvessem negócios que, esses sim, geravam valor tangível. Os bancos guardavam ou transferiam riqueza, não a criavam, e o seu contributo para os cálculos do PIB era visto como o de mera intermediação (intermediate input). Nos anos 1970, as coisas mudaram e a contabilização do seu contributo para as contas nacionais surgiu a par, não por acaso, com a desregulação da actividade financeira, com resultados que estão à vista: durante 15 anos, com total impunidade e sob o olhar complacente e néscio dos supervisores, Bernard Madoff e meia dúzia de capangas montaram um esquema fraudulento de 65 biliões de dólares, só descoberto em finais de 2008, levando à ruína milhares de pessoas. Infelizmente, não foi nem é caso único: os resgates de 2008-2009 custaram qualquer coisa como 498 biliões de dólares. Se não for travado, o rumo louco que o capitalismo financeiro vem tomando liquidará a prazo a economia de mercado, a livre iniciativa e, muito provavelmente, as nossas democracias.

Coisas de loucos? Talvez o leitor não saiba que Olivia Benson, a gatinha da cantora Taylor Swift, tem uma fortuna estimada em 97 milhões de dólares, ainda assim menor do que a de Grumpy Cat, um felídeo que fez 99,5 milhões de dólares em anúncios da internet. Neste campo, porém, a palma vai em absoluto para Gunther IV, o pastor-alemão que abocanhou a herança da condessa Karlotta Leibenstein, falecida em 1992. Com uma fortuna avaliada em 375 milhões de dólares, Gunther tem propriedades espalhadas por todo o mundo, entre villas em Itália, mansões nas Bahamas e herdades vastas na Alemanha. Em 2000, comprou a casa de Madonna em Miami, com nove quartos e outras tantas casas de banho, pela quantia simpática de 7,5 milhões de dólares e, no ano seguinte, arrematou num leilão em Itália uma trufa branca, enorme e raríssima, por mais de um milhão de dólares. Que alguém deixe uma fortuna tamanha a um cão é de loucos, e que isso seja legalmente permitido também. Mas o mais insano de tudo é o animal ser mostrado e exibido na sua vida de luxo, em completo desprezo pelas Leopoldinas e demais pobres deste mundo. Deste mundo cão.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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