Churchill o vice-almirante não é. E era o que precisávamos*

*O trabalho de Gouveia e Melo é bom, ninguém lhe tira isso -- viva o vice-almirante por ser competente. Mas situações excecionais precisam de pessoas excecionais. E Portugal está tão mal habituado que confunde simples competência com brilhantismo.

Já vou às vacinas. Começo por uma coisa antiga, peço-lhe um pouco de paciência...

Nos idos anos 60 havia um programa de TV chamado Zip Zip. Era uma espécie de talk show, chamar-lhe-íamos hoje, com Fialho Gouveia, Carlos Cruz e Raúl Solnado.

No verão de 1969, depois de a NASA ter levado pela primeira vez seres humanos à Lua, o programa de uma dessas noites foi, naturalmente, dedicado ao evento histórico. Eu ainda não era nascido, mas o meu tio Manuel tinha a gravação áudio e, uns dez anos depois, pôs-me a ouvir e nunca me esqueci.

A dada altura, na rábula revisteira -- como foi todo o humor em Portugal até Herman José... -- Carlos Cruz pergunta a Raúl Solnado: "Então e o que é que acha da chegada do homem à Lua?"

"Acho que foi uma afronta!", responde este.

"Aos russos?"

"Não, à CP!"

"Como assim, à CP?"

"Então", prossegue Solnado, "os americanos saíram daqui à tabela, chegaram à Lua à tabela, vieram-se embora à tabela, e a gente tenta apanhar um comboio e nem para chegar a Sete Rios à tabela consegue, homem!"

A piada, avisei, é revisteira. Francamente, não sei se ainda me faz rir pela recordação da minha juventude (1) ou se porque tem mesmo graça, mas trago-a para aqui por aquilo que significa, ainda hoje, para o que esperamos dos serviços públicos.

Nada, absolutamente nada, que seja gerido pelo Estado funciona como deve ser. Tudo é lento, os horários são meramente indicativos ou, na melhor das hipóteses, só servem para sabermos quanto tempo as coisas estão atrasadas. E há que ter paciência.

Era assim há 50 anos.

Continua a ser assim hoje.

Aquilo a que assistimos atualmente nas filas para as vacinas é mais um exemplo. Esta semana, estive mais de duas horas sob um sol abrasador, apesar de ter hora marcada pelos serviços, para apanhar a segunda dose da vacina para a covid.

A desorganização foi tal que a dada altura deixaram formar duas filas -- a segunda das quais com pessoas chegadas há muito menos tempo do que as da primeira -- e só não se gerou um pequeno motim porque, apesar de tudo, as pessoas são pacíficas e minimamente educadas.

Da parte de quem (des)organizava as coisas no local, um evidente cansaço -- claro que não estão com capacidade de resposta, são humanos --, mas uma enorme incapacidade patente para fazer melhor, que mais não seja por falta de efetivos.

Apenas a dada altura me disseram, simplesmente, que as horas marcadas "já não serviam para nada". E nem um pedido de desculpas.

Apesar de tudo, tive sorte. Estive "só" pouco mais de duas horas ao sol (três e picos ao todo, com o tempo de espera lá dentro, mais a meia hora de recobro....)

Um colega esteve três. A filha de uma colega esteve cinco. E os casos noticiados deste género sucedem-se.

No entanto, ainda nesta quinta-feira a task force da vacinação emitia um comunicado em que embandeirava em arco com números recorde e, pelo meio, dizia: "Continuam a chegar ao conhecimento (...) comportamentos, amiúde, menos corretos de alguns utentes para com os muitos profissionais que se encontram nos diversos Centro de Vacinação Covid. Por esta razão, volta-se a reforçar o apelo ao respeito e consideração pelos muitos profissionais que dão diariamente o seu melhor para garantir a segurança e qualidade do processo de vacinação."

Ah, pois, porque ao fim de três, quatro ou cinco horas de espera, com filas desorganizadas, tudo ao monte, a serem passadas à frente e sem ninguém para as orientar, não é natural que as pessoas percam a paciência.

Pois, se as coisas correm mal é por culpa dos cidadãos. Este é, aliás, todo o programa deste governo relativamente à pandemia -- como o é, na verdade, relativamente a quase tudo, porque por exemplo quanto aos incêndios e etc. faz exatamente o mesmo, mas deixemos isso para outra altura.

Isto porque, em Portugal, a partir do momento em que entramos na máquina do sistema público, seja ele qual for (saúde, transportes, emissão do cartão do cidadão, you name it...) deixamos de ser clientes e passamos a ser "utentes". Essa palavra mágica transforma-nos numa espécie de "menos pessoa" que tem de se sujeitar às regras do nivelamento estabelecidas algures pelos diplomas emanados pelo poder todo-sapiente e indiscutível.

Nunca vigorou em Portugal o conceito do contribuinte-pagador, que como tal tem direito a um Estado que existe para o servir. A um governo composto por pessoas cujo poder decorre exclusivamente da confiança nelas depositada pelas suas ações e omissões, não pelo simples facto de estarem no lugar.

Não. Continuamos a viver numa sociedade que aceita como normal que um primeiro-ministro aconselhe às pessoas a que vão fazer filhos... em 2022.

Ou uma ministra que vá fazer política de Saúde para o Programa da Júlia, ao escolher ser lá que anuncia que há, aparentemente, planos para incluir as vacinas da covid no Programa Nacional de Vacinação.

E quanto a Eduardo Cabrita.... mantenho e reforço tudo o que escrevi AQUI.

Agora ficamos a saber que podemos ir jantar à noite aos restaurantes com certificado ou teste, mas só ao fim de semana, porque à semana o "bicho não pega". Só que afinal os estabelecimentos continuam com horários reduzidos e as discotecas continuam a ser centros de pecado à mesma?!

Ó meus senhores, mas habia nechechidade?

No meio disto tudo, a competência do vice-almirante Gouveia e Melo parece de facto uma luz imensa.

Só que...

Sim, Gouveia e Melo está a fazer bem o trabalho que lhe foi incumbido. Mas não é exatamente isso que cada um de nós é suposto fazer? Bem o trabalho que nos é incumbido?

O grande problema é que alguém, nesta fase, tinha de fazer um trabalho EXTRAORDINÁRIO contra a pandemia -- e que nem deveria seria o de Gouveia e Melo.

Lembro que a 24 de junho Gouveia e Melo rejeitou liminarmente a estratégia de acelerar a vacinação nos concelhos mais afetados. E depois teve de acelerar tudo. E agora os serviços estão com dificuldades de resposta.

Lembro ainda que há vários meses que muita gente já perguntava por que razão não se tinham aberto as reservas -- quando os laboratórios já se tinham comprometido a entregar as doses contratualizadas, mais do que resolvidos os problemas de produção iniciais. Só nesta semana Gouveia e Melo anunciou essa abertura...

Lembro que Lisboa e Vale do Tejo (a região mais afetada) mantém-se permanentemente com a taxa de vacinação mais baixa do país, e isso não se tem conseguido resolver.

Lembro que a opção de centralizar a vacinação nos serviços públicos, deixando de fora farmácias ou hospitais privados, por exemplo, foi uma opção exclusivamente política. O resultado está bem à vista: filas de "utentes" sem outra opção.

Gouveia e Melo está a fazer o seu trabalho de forma competente. Mas Gouveia e Melo é um militar. É isso que se espera dele. Pensamento criativo não estará nos seus genes.

Para não perder a II Guerra Mundial, e enquanto tentava convencer Roosevelt a entrar ativamente no conflito, Winston Churchill fez frente a praticamente todos os seus generais. Deslocou a maioria deles dos seus postos, promoveu subalternos. Arriscou e venceu.

Era o que precisávamos neste momento para sairmos disto um bocadinho menos chamuscados.

Não vai acontecer. Nem com duas bazucas, quanto mais com uma.

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(1)Nota: Só para que fique completa, já agora, esta rábula (tenho quase a certeza de que é do mesmo programa; estou a citar tudo de memória) tem uma segunda parte:

Fialho Gouveia: "Então mas tira alguma conclusão desse feito dos americanos? Sabe que isto de pôr um homem num foguetão é muito caro!"

Solnado: "Sabe que no outro dia tive de ir ao médico e ele teve de me receitar uns supositórios. E cheguei à conclusão de que se pôr um homem num foguetão é muito caro, pois que pôr um foguetão num homem também não é nada barato!"

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