China

Neste século em que a estrutura internacional dá sinais de vir a ter necessidade de uma profunda remodelação, tão exigente parece ser a crise global da utopia da ONU, não apenas pela complexidade entretanto criada pelas concorrências dos "emergentes", mas talvez porque o globo será outro quando esta guerra da covid-19, como é esperançoso, terminar com suficiente poder de reformular uma nova ordem.

No entretanto, como que desenvolvendo-se de forma desarticulada, a evolução das potências e o enfraquecimento dos projetos e capacidades a que cada um se entrega, a China aparece como um Estado desafiante dos ocidentais, cujo passado, naquela área do globo, torna à importância do tema do choque de civilizações, com fundamentalistas e integristas a procurarem no caos da humanidade, com a civilização ocidental em risco claramente expresso por Huntington, com o seu escrito (2005) americano - Who are we?.

Nesta complexa intervenção da China, é de lembrar a autonomia da relação do interesse Portugal-China, com expressão em Macau. A navegação portuguesa instalou-se naquele porto em 1553-54, e em 1557 receberam finalmente autorização do governo chinês. Nessa data a China já não tinha a sua histórica navegação, estando agora a tentar redefinir o seu mar territorial. A Catedral de São Paulo é sinal de que também ali exercemos a pregação católica (1602), hoje de novo reconstruída no que resta, com grande talento arquitetónico. A partir da chegada do primeiro português, que foi Jorge Alvares, em 1557 o imperador consolidou a autorização e aumentou o povoamento. Teve alguns incidentes internos, mas durante mais de 400 anos foi o chamado "primeiro entreposto e última colónia em países da Ásia". A chamada "guerra do ópio", que levou a proibir o comércio com os "bárbaros ingleses", terminou com o Tratado de Nanquim (1842), com o imperador a notar que na Inglaterra o povo não era autorizado a usar droga, concluindo: "Se é reconhecidamente tão prejudicial, como podeis vós esperar pela sujeição dos outros ao seu maléfico poder, de acordo com as leis de Deus?"

Não obstante, a partir do Tratado de Nanquim seguiu-se um conjunto de interesses dos EUA, da França, recebendo esta um padroado cristão. Foi este o início dos chamados pela China "Tratados Injustos". Para vingar essa considerada "humilhação nacional", o Kuomintang, dirigido por Sun Yat-Sen, proclamou: "O ano que passou [1942] marcou o centésimo aniversário dos primeiros tratados desiguais celebrados com as grandes potências... a nossa pátria conseguiu transformar a data da abolição num dia de glória." Todavia, o governo português manteve-se até 1999, com a figura do último governador, general Rocha Vieira, a entrar na história ao guardar a bandeira nacional junto ao coração, deixando uma crónica de governo importante.

Nesta circunstância a China orientou-se pelo princípio de um Estado e dois regimes, que abrangeu Hong Kong e Macau, mas julgo que não pode esquecer-se que Mao Tsé-Tung considerou algures que a história de Portugal era diferente na memória da agressão ocidental, porque nunca a praticara. São muitos os portugueses que dedicaram a sua vida a Macau, onde a maioria da população é chinesa, a comunidade de origem portuguesa é importante. Além do último governante, é de recordar, como exemplo, quer pela ascendência quer pelo projeto de ação que não esquece, o doutor Almerindo Lessa, que viu frustrada por despacho sem titular sabido, a primeira criação de uma instituição universitária que ali procurou instalar, com grande originalidade, e a ação da Fundação Oriente, que deve a sua história e prestante ação ao Dr. Carlos Monjardino, podendo aumentar a lista. Depois, a excelência de uma política internacional, e portuguesa. A imprensa atenta divulga pareceres internacionais inquietantes, dificuldades do presente projeto estadual da China, finalmente membro do Conselho de Segurança, mas com um projeto nacional que exige atenção e vontade cooperante esclarecida.

As relações de Portugal coma China não podem deixar de considerar Macau, com o seu passado de relação ponderada, e de futuro conhecido em ajudar a definir e praticar a paz global, devendo ter as vantagens da sabedoria recíproca de reconhecer os valores comuns de cada uma das articuladas populações de um território que é o da sua identidade. Não é talvez esta a relação que mais diferencia os ocidentais que enfrentam a China nem no presente apoia o que se passa nesta data com potências ocidentais de diferente passado, de maior dimensão e projeto histórico; é antes a especificidade de relacionamento, respeitado se fiel à justiça natural, que reconhece Macau como um exemplo seguro de que a Declaração de Direitos da ONU encontrou ali uma justa história do passado, o que recomenda manter o apoio legado pela história, lembrando as palavras de Sarmento Rodrigues, que a Marinha não esquece.

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