Chico e o desconhecido

Eduardo Leite é o jovem governador do Rio Grande do Sul, estado mais meridional do país, candidato nas primárias do PSDB, o partido de centro-direita de Fernando Henrique Cardoso, à nomeação para a presidência da República. O seu rival nas prévias dos tucanos, como são conhecidos os membros do PSDB, é João Doria, que governa São Paulo. Mais apaziguador, Leite vem ganhando apoios no partido e, sobretudo, fora dele. Entenda-se por "fora dele" a grande imprensa brasileira, encantada com a visão liberal do pré-candidato na economia - é adepto de Estado mínimo - e no comportamento - assumiu-se gay na TV Globo.

Em spot de campanha recente, Leite disse que representava "tanto o Brasil de Sérgio Reis como o Brasil de Chico".

Sérgio Reis é uma celebridade de trazer por casa, por tocar num estilo musical muito ouvido no Brasil, o sertanejo, mas pouco considerado no estrangeiro. Elegeu-se deputado em 2015 e hoje milita no Republicanos, partido tomado pela IURD. Tornou-se, entretanto, um apoiante tão fanático de Jair Bolsonaro que, em agosto, convocou camionistas a fazer uma greve para exigir o voto impresso nas eleições e "tirar na marra" dois juízes do Supremo, as obsessões presidenciais daquela semana. Resultado: foi repudiado tanto por líderes camionistas como por autoridades e opinião pública. Alegando crise repentina de diabetes, enfiou a viola no saco.

Chico começou por ser Chico Buarque de Holanda. Depois passou a Chico Buarque. Hoje, é apenas Chico por ser o Chico mais famoso do mundo, com a licença do Papa.

Leite, que quer ser o candidato entre Bolsonaro e Lula da Silva, pretendia sublinhar a sua (suposta) equidistância entre o bolsonarismo, de que Reis é exemplar convicto, e o lulismo, do qual Chico é fiel representante. Entretanto, ao comparar um cantor que obriga o correspondente no Brasil a escrever um parágrafo inteiro para explicar aos leitores portugueses de quem se trata, e Chico, a quem bastam cinco letrinhas, o que conseguiu foi expor, involuntariamente, a diferença entre a dimensão paroquial de Bolsonaro e a dimensão internacional de Lula.

Quem quiser identificar um famoso a sério, como Chico, deve ter em conta que eles, além das apresentações, vão dispensando letras ao longo da vida.

Mesmo Pelé, que já tinha uma alcunha fácil de reproduzir até por um recém-nascido, é tratado pelos compatriotas por Rei - menos uma.

O caso de Maradona, para continuar no futebol, mas do país vizinho, é ainda mais paradigmático - nos cânticos, os argentinos chamam-no "Maradó", deixando cair uma sílaba, e no dia-a-dia era "Diego", menor ainda, ou "D10S", com os dois dígitos que carregava nas costas no meio de duas letras. Continuando na fábrica de mitos argentina, Ernesto Guevara tornou-se Che e se Eva ganhou duas ao virar Evita é porque, paradoxalmente, para se chegar a um diminutivo, por vezes, é preciso aumentá-lo.

John, Paul, George e Ringo deixaram de precisar de apelidos e por aí adiante.

Lula necessita de meras quatro letras, acrescentadas nos anos 80 ao Luiz Inácio da Silva de batismo, para ser identificado no Brasil e no mundo. Tem 48% na sondagem IPEC do mês passado. Bolsonaro, reduzido a Mito pelos apoiantes e a Bozo pelos críticos, na prática, também. Ele tem 23% na mesma pesquisa.

Já Eduardo Leite não passa de 2%. Por alguma razão precisou de 642 longos caracteres lá no começo do texto para ser apresentado.

Jornalista, correspondente em São Paulo

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