Celebrar a diversidade

A língua é a casa do ser.
Martin Heidegger

Em 21 de fevereiro de 1952, um grupo de estudantes e ativistas em Bengala Oriental, atual Bangladesh, enfrentaram os militares paquistaneses reivindicando que a língua bengali fosse reconhecida como oficial. Essa data ficou conhecida como o "Dia dos Mártires da Língua" e a luta travada muito contribuiu para a criação do Estado soberano do Bangladesh, que se separou do Paquistão em 1971.

E, no entanto, o bengali possuía uma longa tradição literária e até um Prémio Nobel, atribuído em 1913 a Rabindranath Tagore, o primeiro escritor asiático a receber essa distinção, tendo os seus trabalhos contribuído para o reconhecimento do bengali que hoje é a língua oficial do Bangladesh e tem cerca de 265 milhões de falantes. Acima de tudo, transformou-se num símbolo do direito à língua materna como parte dos direitos humanos, o que levou a UNESCO, em 1999, a estabelecer a data de 21 de fevereiro como Dia Internacional da Língua Materna.

Foi também em 1999 que a Assembleia da República aprovou por unanimidade o reconhecimento do mirandês como língua oficial de Portugal e, assim, os direitos linguísticos da comunidade mirandesa. Além do ensino nas escolas, o mirandês dispõe atualmente de um Instituto da Língua Mirandesa (Anstituto de la Lhéngua Mirandesa), tradutor automático pertués-mirandés, obras traduzidas como Os Lusíadas ou Mensagem de Fernando Pessoa. Estima-se que serão atualmente 15 a 20 mil falantes, mas não é o número que mais importa, antes a espessura da história que representam e nos representa. O mirandês de origem asturo-leonesa mantém muitos traços comuns ao galego, ao castelhano e ao português. Basta estimular os nossos sentidos e estar atentos ao outro para nos entendermos entre todas estas línguas, o que nos enriquece como humanidade.

A celebração do Dia Internacional das Línguas Maternas assinala um direito fundamental, mas também chama a atenção para as línguas em desaparecimento.

A mais conceituada plataforma de estatísticas das línguas, Ethnologue (2020), indica a existência de 7117 línguas no mundo, mais seis do que a sua edição anterior, o que também resulta de uma maior consciência sobre o que de muito específico cada uma traz para o pensamento humano. Por exemplo, a palavra "ubuntu" é um termo das línguas Nguni Bantu faladas na África do Sul, que pode ser traduzida como "humanidade para com os outros" e se tornou central no pensamento de Nelson Mandela e na forma como promoveu a reconciliação no seu país. Uma só palavra, um sentido vasto e imperdível, assim definido pelo arcebispo Desmond Tutu, cujas reflexões levaram à criação de uma teologia ubuntu: "Sou o que sou graças ao que somos todos nós."

As línguas são, de facto, a casa do ser porque comportam essa dimensão ontológica que faz de nós humanidade. Preservar a diversidade linguística e evitar por todos os meios o monolinguismo que nos apouca é uma reflexão que devemos manter no horizonte da nossa ação quotidiana.


Diretora em Portugal da Organização de Estados Ibero-Americanos

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